A maratona das nossas vidas

Essas semanas conversei com meu melhor amigo, com quem eu não falava há mais de um mês. Você deve estar pensando “nossa se ele é o seu melhor amigo imagina quem não é”. Sim de fato, é compreensivo achar que eu não seja um bom amigo, e talvez eu não seja, e o motivo disso talvez seja porque vivemos cada vez mais imersos em nossas vidas pessoais, 100% egóicas, que não nos damos tempo para fazer coisas que não têm nada haver com nós mesmos, como falar com o seu melhor amigo.

Começamos a conversa como sempre fazemos:

“Eae”

“Fala”

“Caraio, sumiu hein cara? Como você tá?”

“Ah… na merda”

Neste momento parece que a bolha estoura e você percebe que o seu melhor amigo está na merda e você não sabia disso.

“Como assim? O que aconteceu?”

“Cara fui demitido…Basicamente isso”

“Porra, como assim?”

“Fiz coisas que não deveria e tentei consertar, mas já era muito tarde.”

“Que tipo de coisa?”

“Tentei ser o melhor de todos, mas não foi o suficiente, me mandaram embora.”

A conversa não foi exatamente assim, mas a moral da história foi essa e é o ponto que eu quero chegar:

Ele foi atrás da perfeição no seu ofício, eu não culpo ele por isso se é o que você está pensando, até porque nessa profissão, a perfeição é o objetivo máximo, a obra-prima, o suprassumo do criativo (nós somos publicitários).

E a partir disso começamos a filosofar e divagar pela madrugada sobre o que significa essa corrida pela perfeição, e traço aqui um paralelo com esse esporte:

O maratonista talvez seja um dos atletas mais egóicos de todos, ele corre por ele mesmo, mais ninguém. Pode parecer estranho, porque existe uma competição, mas não é quem chega primeiro ou quem corre mais rápido, apesar dessas coisas serem consequências ou causas, o que vale mesmo é o tempo e a sua própria mente.

Você luta contra você mesmo o percurso inteiro, é uma das batalhas mais difíceis, porque o seu cérebro trabalha contra você, no momento que o seu corpo começa a se desgastar, ele entra em modo de defesa, mandando respostas que te fazem sentir dor, fatiga, falta de ar e sobreaquecimento do mesmo.

Tudo isso para você parar de se matar e descansar.

O outro é o tempo, ele é crucial. Ele separa o vencedor do segundo lugar e assim por diante. Quem faz o melhor tempo vence, sempre.

Não parece um pouco com o trabalho criativo?

O publicitário moderno trabalha sob a pressão do tempo, “o job é pra daqui uma hora, corre ai!”, quem nunca ouviu isso?

Quantas noites mal dormidas, quantos almoços apressados e aquela sensação de que faltou alguma coisa? E a fatiga, o cansaço, a falta de ar no fim do expediente? Porra parece que corri uma maratona e nem sai do lugar!

A única diferença entre as duas, ao meu ver, é que existe uma linha de chegada na primeira. Uma hora aquela merda acaba, você cruza a linha e chora, se emociona e ganha a bendita medalha!

A outra não possui esse “luxo”.

“Ah mas entregar o job não é chegar na linha de chegada?”

Talvez fosse há alguns anos atrás, quando esse mundo era mais enxuto e advinha, menos egocêntrico.

Hoje nada está bom, nada é satisfatório – aliás essa palavra se tornou o sinônimo de “menos bosta” – quem trampa ou trampava nesse ramo com certeza já ouviu a frase “ainda não chegou lá.”

Mas aonde é “lá” exatamente?

Onde fica a linha de chegada?

A perfeição leva anos para ser atingida, é o que falam. Mas cara, quer dizer que o que eu estou fazendo agora, as 3h da madruga, sem dormir faz dois dias, não é bom? Nunca vai ser perfeito? Deve ter alguma coisa errada então…

Será que nos inscrevemos, pagamos o boleto, pegamos a camiseta e o kit, treinamos muito, para correr uma maratona interminável, sem nunca cruzar a linha de chegada?!

Isso me dá arrepios.

Acho que precisamos ouvir o que o nosso corpo está nos dizendo, ele está pedindo arrego, um descanso, é como correr, só que sem o benefício. Dê isso a ele.

No final das contas se você está nesse ramo, lembre-se:

Você só faz propaganda.

Só isso.

Não estamos salvando vidas, ninguém vai morrer se não estivermos no posto de trabalho.

Um salve aos médicos e médicas, esses sim são heróis.

Foi o que eu falei para o meu amigo, o caminho talvez seja pular fora dessa maratona, buscar um jogging leve, um futebol de fim de semana, levar a vida com mais calma.

O psiquiatra Fritz Perls, famoso por um método apelidado de Gestalt-terapia, sabiamente disse:

Exigências de perfeição limitam a capacidade do indivíduo de funcionar dentro de si mesmo.

Fritz Perls
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Daniel Fukuda

One comment

  1. excelente ponto de vista

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