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O contato humano virou um luxo

Evitar telas está se transformando em uma opção disponível apenas para as elites

Ilustração de Yuval Robichek / @yuvalrob
Ilustração de Yuval Robichek / @yuvalrob

Treinamentos digitais. Aulas EAD. Apps para meditar, relaxar, fazer ioga e até se exercitar em casa. Aos poucos, parece que a vida vai ficando cada vez mais mediada por telas. No entanto, essa poderá ser uma forma de “discriminar” socialmente camadas com menos posses, argumenta a Nellie Bowles, em reportagem do The New York Times. Para ela, a presença massiva das telinhas é fácil de entender: elas são baratas de fabricar, cabem em ambientes tão diversos como escolas, hospitais, aeroportos e restaurantes, e intermediam atividades comuns do cotidiano. 

No entanto, as elites estão cada vez mais desconfiadas das telinhas – ou sempre estiveram, se lembrarmos das anedotas de Steve Jobs e Bill Gates evitando expor os filhos às tecnologias que criavam – e não querem viver intermediadas por telas: elas querem contato humano.

Só que colocar alguém para executar uma função que pode ser feita por um app é mais caro, o que limita esse tipo de interação à quem pode pagar por elas. Bowles usa como exemplo as escolas infantis que evitam o uso da tecnologia com as crianças, como é o caso da pedagogia Waldorf, que estão em alta nos EUA. Ter uma pessoa interagindo com a criança – ao invés de um aplicativo em uma tela – é mais caro, mas as elites estão dispostas a fazer esse investimento. 


O que estamos vendo hoje é a transformação do engajamento humano em um luxo

Milton Pedraza, Luxury Institute.

É uma ironia fina: antes, os gadgets eram uma forma de demonstrar o status social, se mostrar importante. Hoje, poder evitar as telinhas é que faz de você alguém realmente no topo da pirâmide social. “Se você realmente está no topo da cadeia hierárquica, você não tem que responder à ninguém. Eles é que tem que responder a você”, frisa Pedraza. 

Parece muito Black Mirror, mas já é verdade, em certo ponto. Quem tem os meios financeiros pode optar por não entregar seus dados a um aplicativo, não ver um anúncio, ou não ser atendido por uma inteligência artificial em uma telinha e sim receber atenção diretamente de um ser humano. Talvez as classes média e baixa não tenham recursos suficiente para “comprar” essa experiência incrível que é se relacionar com um outro ser humano.

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Mentor

Escrito por Jacqueline Lafloufa

Jornalista freelancer há 10+ anos, já escreveu e editou para grandes publicações brasileiras (Galileu, UOL, B9, Tecnoblog). Também transforma suas pesquisas jornalísticas em apresentações públicas – como palestras, oficinas e debates. Eventualmente atua como ghostwriter, com experiência em produção de conteúdo. Em oportunidades especiais, faz tradução literária do inglês para o português. É pós-graduada em comunicação digital (USP) e jornalismo científico (Unicamp), e bacharel em estudos literários.

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