Aos ansiosos de plantão, xeque-mate

Uma mulher chamada Tracy Whitney está em um cruzeiro atrás de vingança contra os homens que armaram contra ela. Durante a viagem, conhece Jeff Stevens, um irresistível vigarista. Em busca de dinheiro fácil, o trambiqueiro propõe à moça um plano impossível à primeira vista: enfrentar os dois maiores enxadristas do mundo, com a promessa de que ela não perderia para eles. Só tinha um porém: Tracy nunca havia jogado xadrez. Jeff organiza as duas partidas, que deveriam acontecer simultaneamente e em ambientes diferentes. Apostas reunidas, o jogo começa.

Mudo a página para um assunto que me visita frequentemente: nossa busca contínua por atalhos, pelo caminho mais fácil, menos tortuoso.

Em um mundo de mudanças tão dinâmicas, me parece natural esse movimento. São as séries de TV que a gente não precisa mais esperar a semana seguinte para ver, a notícia que o jornal publicou agorinha há pouco, o acontecimento que nos impactou nas redes sociais não faz cinco minutos.

Não é à toa que a nossa percepção de tempo em relação ao trabalho também esteja mudando. Antigamente, nossos pais ficavam anos e anos na mesma empresa. Hoje, parece que o tempo passa como idade de cachorro. Ficar apenas seis meses em um lugar não é mais nenhuma novidade. Dois anos já parece demais. Cinco anos – vixe – vai se aposentar aí, é?

Queremos avanços instantâneos, reconhecimentos imediatos, progressos no estalar dos dedos. Nosso relógio virou um cronômetro sempre em contagem regressiva para a próxima mudança. É difícil “esperar” no mesmo lugar sem a sensação de perder tempo.

Em compensação, existe o outro lado da moeda na palavra “esperar”. Porque, em alguma medida, a gente tem esperado sim, mas esperar no sentido de contar com, ficar à espera de. Muitas vezes, mesmo sem aguardar o tempo de acontecer as coisas em si, a gente espera o reconhecimento, o elogio, o aumento de salário. Você não sente isso também?

Mas quando o assunto é um trabalho bem feito, ainda não existe uma fórmula garantindo que ele seja realizado da maneira mais rápida. O tempo ainda costuma respeitar o que é feito com tempo. Em outras palavras: não adianta desejar uma comida preparada por um chef, se você quer ela aquecida no micro-ondas.

No caso do trecho do livro do Sidney Sheldon citado lá no começo, a possibilidade de um retorno alto vem de um risco também alto. A aposta em uma ideia (uma roubada de jogo, vai), e não na construção consistente do trabalho. Um all-in com grande chance de fracasso. Mas, claro, por ser uma ficção, essa é justamente a graça da coisa.

Embarco de volta ao texto.

Na sala, o enxadrista 1 realiza o seu primeiro movimento. Tracy, então, vai até a sala ao lado e replica essa mesma jogada contra o oponente 2. Ele por sua vez faz seu movimento. Ela retorna à primeira sala e replica o movimento contra o primeiro adversário. O jogo segue assim. O que um fazia, ela repetia com o outro, e assim por diante. No fim das contas, Tracy fez os dois jogarem entre si. As partidas terminam empatadas. Jeff e Tracy levam toda a bolada das apostas. Xeque-mate.

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Lucas Ribeiro
Carioca, atleticano, redator da Crispin Porter + Bogusky, professor da Miami Ad School.

2 Comments

  1. …Se Houver Amanhã

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