O dia que não ouvi minha intuição!

Enquanto eu escrevia a análise de Parasita para um blog especializado em Cinema e Séries, uma única pergunta me vinha na cabeça: Será que a Academia teria coragem de premiar um filme sul-coreano na categoria “Melhor Filme”? A pergunta era retórica e por isso terminei aquela resenha com a seguinte constatação: “É fato que a Academia reconhece a obra, claro, mas não sei se teria coragem de colocá-la na frente de nomes como Tarantino ou Scorsese e de filmes como 1917 ou Coringa – por merecimento, seria o campeão da noite; por intuição o páreo ainda está aberto!” 

Minha intuição até poderia estar certa, mas o desenho que estava se formando indicava o Oscar mais disputado dos últimos anos, com categorias recheadas de “nomes de peso”, talvez o menos polarizado da história, mas, meu Deus, seria realmente possível vencer 1917?

O “Favorito do Ano” que levou apenas 3 estatuetas para casa!

No dia 13 de janeiro, quando saíram os indicados minha conclusão foi a seguinte: “Coringa”, com 11 indicações; “Era Uma Vez em Hollywood”, “1917” e o “O Irlandês” com 10 indicações são os favoritos da noite, mas cuidado “Parasita”, “Adoráveis Mulheres” e “História de um Casamento” com 6 indicações cada, podem surpreender.”

“Parasita” levou 4 prêmios das 6 indicações que recebeu! 

Chegamos no dia 09 de fevereiro, e as surpresas começaram a me provocar quando a categoria de “Melhor Roteiro Original” foi anunciada. Eu sabia que seria uma categoria muito disputada, Parasita teria uma pequena chance, mas  Era Uma Vez Em… Hollywood que ganharia: “(…) se tratando da Academia acho que Quentin Tarantino vai levar!” – O curioso é que na pesquisa que o site Viu Review fez com seus usuários durante o período de votação da AMPAS, o resultado foi diferente: por pouco mais de 10%, os vencedores seriam Bong Joon Ho e Han Jin Won com Parasita; e foi o que aconteceu durante a Cerimônia! O primeiro prêmio estava garantido!

Havia chegado a hora do anúncio da categoria mais barbada da noite: “Melhor Filme Internacional”. Eu ainda tentava justificar uma pequena possibilidade de me surpreender no final: “(…) se Parasita não levar aqui, leva de “Melhor Filme”, pode anotar!”. Na minha cabeça era uma condição: A Academia jamais daria dois prêmios de “Melhor Filme” para Parasita– “(…) nem a “Vida é Bela” conseguiu isso!”

Na mesma pesquisa, Parasita foi praticamente uma unanimidade com quase 90% dos votos – maior até do que Joaquin Phoenix receberia na categoria “Melhor Ator“. A barbada se confirmou: Parasita ganhou na única das indicações onde era o favorito disparado e Bong Joon Ho já se dava por satisfeito “agora vamos beber!” – ele dizia!

Imagem: REUTERS/Mario Anzuoni

Já se aproximava o final da Cerimônia quando a segunda surpresa da noite aconteceu: “Melhor Diretor”!

Era uma das categorias mais complicadas de se apostar, mas eu acreditava que, pela dificuldade técnica e pela proposta cinematográfica inovadora, esse prêmio ia para o Sam Mendes com 1917. Não tinha como ser diferente, o cara já tinha ganhado o “Globo de Ouro”, o “BAFTA” e até o DGA 2020 (Directors Guild Award) – prêmio entregue pelo Sindicato de Diretores dos Estados Unidos.

Embora equilibrada, a pesquisa da Viu Review indicava o mesmo resultado:

Mas um fato havia me chamado a atenção: “(…) um diretor sul-coreano ficar em segundo na pesquisa? Bong Joon Ho de Parasita tem sua assinatura, sua identidade, é um craque, mas não é um diretor muito conhecido – estar na frente do Martin Scorsese e do Quentin Tarantino já mostra um amadurecimento do público ou seria um acaso?”

Pois bem, ele não só ficou na frente do Martin Scorsese e do Quentin Tarantino, como também despachou o grande favorito, Sam Mendes, e levou o prêmio de“Melhor Diretor” pra casa –  e olha que Bong Joon Ho nem mexicano é (rs)!

Imagem: AFP/Mark Ralston

Nesse momento minha cabeça já estava pegando fogo: Será que Parasita poderia vencer mais alguma coisa? Só sobrava “Melhor Filme”, mas nem nos melhores sonhos (ou nos melhores filmes) isso seria capaz de acontecer e aqui peço licença para copiar o que escrevi no final da análise que escrevi para o filme: “Parasita é um fenômeno do mesmo nível (ou maior) que “A vida é bela” – acredito, inclusive, que se o filme fosse americano, seria o vencedor do ano!” – Mas a razão logo me jogava para a realidade: “O filme é sul-coreano, não tem a menor chance!”

Coringa foi o filme com mais indicações em 2020 e levou apenas 2 prêmios! 

Para os que votaram na pesquisa da Viu Review, Coringa levaria o prêmio e a porcentagem de preferência surpreendia: Coringa com 44%, 1917 com 19% e Parasita com praticamente 15%, fechavam o pódio!

Levando em consideração a forma como o vencedor da categoria é definido (saiba mais aqui), minha aposta também foi em Coringa: “(…) mesmo sabendo que o grande favorito é 1917. Para mim, ficou muito fácil definir os dois filmes: enquanto 1917 é grandioso e uma experiência única, Coringa tem a segunda melhor história do ano! Opa, como assim? Eu explico: o melhor filme, para mim, foi Parasita, mas é extremamente improvável que um filme estrangeiro leve esse prêmio para casa – não por falta de merecimento, mas por protecionismo mesmo! Infelizmente!”

Foi aí que a grande surpresa aconteceu: Parasita ganhou o prêmio de “Melhor Filme”no Oscar 2020, se tornando o grande vencedor da noite, levando 4 das 6 categorias que disputou ainda protagonizando um feito histórico: ser o primeiro filme “não falado em língua inglesa” que ganhou o prêmio máximo do cinema mundial!

Resultado da noite: Foi ano de Parasita, Bo Joe Hoo provavelmente ficou muito bêbado e eu perdi o bolão por não ter ouvido minha intuição!

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Andre Siqueira
Head of Content e Innovation na Viu Review
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