Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Entro num acordo contigo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

Esses versos de Caetano Veloso, na música Oração ao Tempo, são um convite perfeito para uma reflexão que se tornou ainda mais necessária agora, com o mundo que começa a emergir com a pandemia. Uma reflexão sobre a gestão do tempo – sobre nossa relação pessoal com o tempo – e a organização da rotina diária, que tem se tornado mais complexa e desafiadora.

Pensar sobre essas questões é especialmente importante agora porque as experiências recentes têm mostrado que, para a maioria das pessoas, os dias têm ficado mais atribulados, mais longos, e também mais estressantes. O tempo parece ter ficado mais escasso – por outro lado, mais precioso.

Se antes já era um desafio conciliar o tempo dedicado ao trabalho com o tempo livre, a nova realidade trouxe mais frentes a nos exigir mais tempo: os protocolos e cuidados diante da pandemia, a necessidade ainda maior de informação e comunicação, a adequação dos nossos negócios, o homeschooling das nossas crianças. Com o confinamento, muitas pessoas também passaram a assumir atividades que antes terceirizavam, como a faxina e manutenção da casa e o preparo das refeições.

De todo modo, em qualquer realidade, há uma falácia a ofuscar o desafio de uma melhor gestão do tempo: que o tempo de trabalho é apenas aquele dedicado a sua profissão, carreira ou negócio. 

Revendo o conceito de “trabalho”

Estamos acostumados a considerar, como nosso trabalho, apenas o trabalho profissional. Criou-se assim um descompasso na gestão do tempo. Eu, por exemplo, me vi várias vezes deixando a faxina da minha casa ou o preparo de uma refeição mais elaborada para os sábados. O que significa isso? Além da natural redução do meu tempo livre, uma demonstração de que antes eu não considerava as minhas atividades domésticas como trabalho. Hoje estou certa de que é tudo trabalho. 

Um grande amigo, o consultor Renato Saraiva, fez um cálculo simples que nos ajuda a entender melhor a questão. Partindo de um ponto inicial de 8 a 10 horas de trabalho profissional por dia, ao adicionarmos uma média de 4 horas diárias de atividades domésticas – entre cozinhar, lavar louça, limpar a casa etc. –, chegamos a uma média de 12 a 14 horas de trabalho diário. Se adicionarmos a essa conta as 8 horas recomendadas de sono por dia, estamos gastando no mínimo 20 horas entre trabalhar e dormir. E o tempo de educação e cuidado com as crianças? Da comunicação diária com familiares e amigos? Das consultas e exames médicos? Das novas rotinas advindas com a pandemia? Isso tudo também não conta? E o tempo de lazer, estudar, fazer exercícios físicos, ler e relaxar? Isso também não é importante?

É sim, e por isso devemos rever essa lógica de organização do tempo, que vem da Revolução Industrial, e virar a chave para uma visão Pós-Digital, de revalorização do humano. Ao dedicarmos menos horas aos nossos trabalhos profissionais, teremos mais tempo para os trabalhos domésticos, para as diversas rotinas, para o sono e para o lazer, para deixar a criatividade fluir. A descompressão é necessária para a saúde mental. 

Essa questão é tão importante que já existem países adotando medidas para equilibrar essa relação. É o caso da Finlândia, onde está sendo avaliada uma jornada de trabalho de seis horas, quatro dias por semana. Para a primeira-ministra finlandesa Sanna Marin, a medida não apenas beneficia trabalhadores, mas também aumenta a produtividade. “Acredito que as pessoas mereçam passar mais tempo com suas famílias, com os entes queridos, praticar hobbies e outros aspectos da vida”, disse nesta entrevista. É realmente uma visão moderna, antenada com o mundo contemporâneo, em que a qualidade de vida deve vir em primeiro lugar, o que, como conseqüência, contribui com o rendimento profissional. 

O insight da lasanha de berinjela

Depois de refletir sobre como organizar melhor minha agenda, cheguei à conclusão que um bom caminho para mim é incorporar as tarefas da casa dentro das horas úteis do dia. Ou seja, ir entrelaçando as atividades profissionais e não profissionais. Porque percebi que deixar tudo o que não é trabalho corporativo para o fim de semana não funciona. A gente se sobrecarrega, e o sábado e o domingo não dão conta. 

E o insight de como colocar isso em prática me veio semanas atrás, enquanto buscava tempo na rotina para preparar uma lasanha de berinjela. Percebi que, ao reservar na programação do dia momentos específicos para a preparação do prato, seria possível deixá-lo pronto sem sacrificar um bocado de tempo no fim de semana para isso – com a vantagem de que essa tarefa me proporcionaria instantes de descompressão durante a rotina diária, porque eu adoro cozinhar.

A rotina que eu planejei foi a seguinte: logo depois do café da manhã, antes de iniciar meu dia de trabalho com a Ollo, cortei todos os ingredientes do molho de tomate e coloquei para cozinhar. O molho caseiro, quanto mais cozinha, melhor fica. Então, enquanto cumpria minha jornada da manhã, o molho ficou cozinhando (importante ir repondo com água de tempos em tempos). 

Na hora do almoço (normalmente, já faço comida a mais e deixo congelada para que o almoço saia mais rápido), cortei as berinjelas e passei na frigideira. À tarde, fiz uma pausa no trabalho para um chá e aproveitei para misturar o recheio de ricota. E, ao fim do dia, quando terminei a jornada corporativa, só precisei montar a lasanha e colocá-la no forno para assar. Já estava tudo pronto. Resumo da ópera: em um dia útil de bastante trabalho, jantei um prato que antes eu só conseguia preparar no fim de semana, pois fazia de forma linear, contínua.  

Essa foi a minha maneira de, como diz a canção de Caetano, entrar num acordo com o tempo. Hoje, levo essa lição da lasanha para a minha agenda em geral. E está funcionando. Tenho conseguido mais espaço no dia a dia para realizar todas as tarefas necessárias, cuidar da saúde do corpo, do espírito, criar, cozinhar e estar mais tempo em contato com as pessoas que são importantes para mim. 

Ah, para quem quiser a receita da lasanha de berinjela, é só pegar aqui. A receita é do Panelinha, da diva Rita Lobo. Tomei a liberdade de inserir algumas mudanças no preparo, que compartilho abaixo:

Versão vegana da receita + algumas outras dicas 

  • Na versão vegana, minha predileta, eu faço o leite vegetal de castanha (pode ser castanha de caju, amêndoa, castanha do Pará), e com o residual do leite faço a ricota. O ovo eu substituo por pasta de missô, mas é opcional. Se não tiver, não tem problema. Para fazer o leite vegetal, basta bater no liquidificador 1 xícara de castanha hidratada por 12 horas e 800 ml de água mineral ou água de côco. Depois, coar em um coador de pano ou voal e reservar o resíduo para a ricota. 
  • Onde moro não costumo achar salsão (aipo, para os cariocas), então faço sem e fica ótimo também.
  • A receita original pede pimenta calabresa, mas eu gosto também de variar e usar pimenta caiena.
  • E, finalmente, se o manjericão for plantado em casa, melhor ainda. Manjericão é super fácil de plantar em casa ou apartamento.

Depois me diga o que achou!

Karina Rehavia

Fundadora & CEO da Ollo