Besouro rola bosta

Uma vez meu gestor me contou a seguinte história. Um homem passou em frente a um canteiro de obras e viu três pedreiros trabalhando. Curioso, ele perguntou: “o que vocês estão fazendo?”. O primeiro homem, meio desanimado, disse: “estou fazendo argamassa”. O segundo, também desanimado, disse: “estou descarregando os tijolos”. O terceiro, com um sorriso no rosto, responde: “estou construindo a escola onde meu filho vai estudar”. A moral da história, segundo meu gestor, é que trabalhar pensando em um propósito (ou resultado final) é muito mais gratificante do que pensar na atividade, apenas.

Bom, segundo Albert Camus, autor do livro “O Mito de Sísifo”, isso pode não ser verdade.

Por que sua empresa precisa de um propósito?

Para o marketing, empresas com propósito podem obter ganhos financeiros e uma melhor percepção de marca. Para alguns estudiosos de gestão de pessoas, incutir um propósito na cabeça dos colaboradores é uma forma de tornar seu trabalho mais significativo, o que pode ajudar na motivação e produtividade deles. Já para Camus, buscar um propósito é algo absurdo.

Em “O Mito de Sísifo”, o filósofo existencialista descreve o que ele chama de absurdo: a busca incessante por um propósito em um universo que é indiferente a sua existência. Em outras palavras, procurar sentido seria perda de tempo, mas abraçar a ausência de propósito seria algo muito mais produtivo para sua vida. Buscar um propósito é enganar a si mesmo e, com isso, viver na escuridão da ignorância e da desilusão.

Toda a infelicidade dos homens nasce da esperança.

Grafite na parede de homem sorrindo com a frase "O propósito de nossas vidas é ser feliz"
Albert Camus não aprovaria esse grafite.
Fonte: Pixabay

Como mensurar o resultado do propósito

Não há como fazer isso de forma satisfatória. No artigo de George Serafim, publicado na Harvard Business School, ele tenta traçar um paralelo entre “propósito” e ganhos financeiros efetivos. No final, ele conclui que isso não é algo possível de se quantificar, mas que, ainda assim, empresas que tem um objetivo claro tiveram melhores resultados.

O termo-chave aqui é objetivo claro, e não necessariamente propósito. George, logo na introdução do artigo já afirma que “um aspecto crucial do propósito é sua intangibilidade” e, pouco depois, ele afirma que as melhorias nos resultados vieram dos trabalhadores que mais se engajaram nesse propósito. A isso, Camus chamaria de suicídio filosófico e você já vai entender o motivo.

Qual o real propósito de uma empresa?

Indo direto ao ponto: gerar lucro. Com exceção do terceiro setor e entidades de caridade, o maior propósito de uma empresa é gerar lucro, seja para aumentar a renda dos acionistas ou para mantê-la saudável e gerando empregos. Isso, por si só, já deveria ser o suficiente para jogar por terra toda a ideia de propósito e a imagem amigável que se tenta passar com isso.

Nenhuma empresa vai fazer isso simplesmente por boa vontade e é aí que mora o problema. Fazer os funcionários e consumidores acreditarem nesse propósito é incentivá-los a cometer o suicídio filosófico de Camus, fazendo-os acreditar que o que eles fazem ou compram tem um significado maior, distorcendo a própria realidade. Mas, mais do que isso, é esquecer que, apesar dos pesares, somos seres racionais.

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Golden Circle.
Fonte: Cria UFMG.

Simon Sinek, na sua palestra no TED, toma a Apple como exemplo. Usando do famoso Golden Circle, ele explica que usar de argumentos racionais (o “What?” do círculo) é menos eficiente do que uma abordagem focada no propósito (o “Why?”, do círculo). Assim, os argumentos racionais seriam:

Nós criamos computadores excelentes, que são lindamente projetados, fáceis de usar e têm uma interface intuitiva.

Enquanto que um argumento focado no propósito seria algo como:

Nós buscamos sempre inovar e pensar de forma diferente. Por isso, criamos produtos lindamente projetados, fáceis de usar e que têm uma interface intuitiva, a fim de desafiar o status quo. Com isso, produzimos computadores excelentes.

Pareceu melhor, certo? Mas será que isso faz diferença na prática?

Por que comprar Apple?

Pesquisando na internet, a maior parte dos artigos que encontrei explicando “por que comprar Apple?” falavam de atributos como:

  • Experiência de compra;
  • Qualidade geral do produto;
  • Hardwares avançados;
  • “Ecossistema” Apple;
  • Privacidade;
  • Assistência técnica.

Nenhum dos artigos citava o fato de “investir em inovação”, nem mesmo a própria marca, nem mesmo os usuários dando depoimento. O que isso significa? Atributos racionais ainda prevalecem sobre atributos intangíveis, o que é indicativo de que “ter um propósito” não é uma ideia mágica que seus clientes comprarão (ou lembrarão) na hora de tomar decisões. Ou seja: ter um propósito não parece ser um diferencial competitivo tão grande.

Por que trabalhar na Apple?

Encontrando alguns relatos de ex-funcionários na internet, boa parte deles citou os seguintes atributos:

  • Salário;
  • Possibilidade de trabalhar com pessoas inteligentíssimas;
  • Benefícios (entre eles os descontos em produtos Apple);
  • Desafios constantes;
  • O peso de ter “Apple” no seu currículo.

Alguns relataram que gostam de trabalhar lá porque a empresa investe em inovação, o que pode ser interpretado. Note que a empresa investe em inovação não porque é divertido ou porque é o propósito dela, mas porque espera que isso traga algum retorno. Por isso é um investimento, e não uma doação.

Animação de um homem rolando uma pedra montanha a cima, apenas para ela rolar para baixo em seguida e ele recomeçar do zero
Qual o propósito em rolar uma pedra montanha a cima, apenas para vela rolar montanha a baixo?
Fonte: Be You.

O que Sísifo tem a ver com isso tudo?

Caso você não conheça o mito de Sísifo, o TED-Ed fez uma excelente animação contando essa história. Em resumo, Sísifo enganou aos deuses várias vezes e, como punição, foi obrigado a rolar uma pedra pesada montanha a cima. Ao chegar perto do topo, a pedra se tornaria pesada demais e, com isso, rolaria montanha a baixo, obrigando Sísifo a recomeçar do zero. Uma tarefa, basicamente, sem propósito.

Se Sísifo tentasse imaginar um propósito para essa tarefa repetitiva, é possível que se frustre. Aliás, é aí que mora o castigo: a busca por um significado, onde ele não existe. Em vez disso, Camus defende que Sísifo precisa valorizar aspectos mais palpáveis, de forma a tornar sua experiência até mesmo prazeirosa. Em vez de focar no resultado da tarefa, ele pode focar em apreciar coisas como a textura da pedra, a beleza da paisagem ou até mesmo a brisa que o vento traz.

Para Camus, essa era uma forma de Sísifo se revoltar contra o absurdo. Se Sísifo aprender a aproveitar a sua tarefa, ainda que ela não tenha propósito, o castigo deixa de ser um castigo. Nesse sentido, experiências palpáveis são muito mais valiosas do que qualquer senso de propósito ou significado.

Da mesma forma, seu colaborador pode apreciar muito mais a cultura organizacional da empresa, o tempo livre que sobra ao final do expediente, o café de qualidade na máquina ou os benefícios que a empresa dá. O seu consumidor, por sua vez, pode apreciar a beleza do seu produto, a facilidade do uso ou até o sentimento de que o preço que pagou valeu a pena.

Resumo

Sua empresa pode, sim, ter um propósito. Mas buscar criar um de forma desenfreada pode ser algo danoso, ou simplesmente perda de tempo e dinheiro. Não é algo que traz benefícios tangíveis e é algo que, no fim, engana: engana consumidores, engana os colaboradores e engana quem achou que ter um propósito traria resultados mágicos para a empresa.

Como Albert Camus bem falou:

Antes, a questão era descobrir se a vida precisava de ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado.

Antes de investir milhões em propaganda e em agências de branding que vendem propósito como o salvador dos negócios, pense antes se ir pelo caminho mais simples não é melhor. Que tal adotar o seguinte propósito para sua empresa?

Ofertar produtos com qualidade e preço justo, de forma a satisfazer a necessidade dos nossos clientes. Com isso, pagar bons salários e prover excelentes benefícios para nossos colaboradores.

Muito mais simples, você pode usar de graça e, com certeza, mais significativo para todos os envolvidos.

3 comments
  1. Muito bom mesmo. Também sou desses “pé atrás” contra essa corrente messiânica do “propósito”. Também publiquei algumas coisas aqui sobre isso. Mas curti a abordagem e como estudante e profissional de branding vejo que existe um abismo entre os conceitos e a prática. Nos livros e palestras o propósito é lindo e salvador. Na prática é complicado, muitas vezes incompreensível e precisa estar sempre ligado ao retorno financeiro. Propósito sem lucro, é um ativista sem comida: morre em menos de um mês.

  2. Gostei da abordagem e da escrita, boa reflexão. Muito legal trazer o tema à discussão, especialmente quando se fala tanto em “propósito”, tanto no aspecto pessoal quanto no corporativo.

    Tem uma animação recente que, no fim, também fala sobre propósito que é o filme “Soul”, da Disney. É mais no aspecto da vida pessoal, mas vai em consonância com o que você escreveu, recomendo :)

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