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Sinônimo do que há de mais másculo em um homem, a modernidade não foi capaz de se desfazer dos cowboys como o ideal de força, coragem, rispidez e brutalidade. Nos Estados Unidos, principalmente, o cowboy não apenas ainda representa esse imaginário como foi exportado para outras culturas. O cowboy é, talvez, o mais proeminente personagem do sonho americano. Os dois estão conectados pela vontade e ambição de dominação da vida selvagem e, de certa maneira, da predominância desse estilo de vida sobre qualquer tipo de civilidade. 

Os filmes de faroeste só aumentaram essa popularidade. John Wayne foi lendário. William Holden foi um sanguinário Pike Bishop em “Meu ódio será tua herança”, do mestre Sam Peckinpah. Sergio Leone praticamente refundou o gênero com “Por um punhado de dólares”. E muito provavelmente o diretor e ator, Clint Eastwood, que acaba de completar 91 anos, tem uma parte importantíssima nisso. Eastwood se especializou em equilibrar as nuances do símbolo: seus cowboys eram maus só até certo ponto; fez anti-heróis com um senso de juízo e heroísmo consideráveis. 

Pra mim, tem três filmes que desfazem o símbolo do cowboy de maneiras muito marcantes. 

Perdidos na Noite

O primeiro é “Perdidos da Noite”, de John Schlesinger. Jon Voight faz um cowboy que sai do interior em direção à Nova York disposto a ter uma vida muito melhor. Quando chega lá, encontra  em Ratso (Dustin Hoffman) uma espécie de guia para o submundo. Ele se prostitui, passa fome e entende que fora do velho oeste, seu chapéu ridículo e sua coragem infantil não servem de nada. A vida na cidade é um soco na cara do qual ele nunca mais se recupera. 

Os Imperdoáveis

A segunda quebra é em “Os Imperdoáveis”, uma obra-prima feita por Clint Eastwood. A natureza do cowboy e o ideal americano foram criados a partir de pessoas sanguinárias, sem nenhum tipo de amor ou empatia. É uma inversão constante de esteriótipos e símbolos. Não há o maniqueísmo que marcou o gênero, nem aquela malandragem magnética de obras como “O homem que matou o fascínora”. A brutalidade os homens americanos não é heróica. Todo massacre é uma espécie de gasolina para incendiar a alma desses homens e levá-los ao seu estado natural. Eles são como o ambiente onde estão. Ao botar esse tipo como um juiz que vai sentenciar 3 homens por terem retalhado o rosto de uma prostituta, Eastwood disseca a figura inspiradora como um anjo vingador de pura maldade. O protagonista William Munny já matou quase tudo que anda ou rasteja.

O Segredo de Brokeback Mountain

Já em “O Segredo de Brokeback Mountain”, de Ang Lee, a quebra não é pelo ódio, dor ou rancor, como outros tipos marcantes do Western. Ao ilustrar o delicado romance entre dois homens, o filme faz o maior rompimento do ícone de cowboy até então. Mexe na carne. Os foras-da-lei não são homens que roubam, matam ou são briguentos. A lei que está sendo confrontada é do matrimônio tradicional, do amor e do relacionamento. Os dois ocupam outro tipo de marginalidade. O filme também vira do avesso os símbolos cristãos que marcam a cultura do país: a montanha consuma um amor que não é sagrado. Os dois pastores de ovelha lidam com um perigo constante, e o sacrifício do amor serve como uma espécie de pedido de perdão pelo que sentem. 

A análise olha os três filmes por cima. Mesmo assim, dá pra dimensionar o cowboy como um símbolo cultural resistente. O macho de verdade é um homem de velho oeste, de costume teimosamente rupestres, simples, que não precisa mais do que uma bota, um cigarro e uma boa garrafa de wisky para viver em qualquer lugar. Ainda que ele goste de outro homem, ainda que ele viva numa metrópole suja e fétida, ainda que ele mate até crianças, um cowboy será sempre um cowboy. Não importa qual seja o país , a língua falada ou as tradições – Barretos e o sertanejo brasileiro são uma prova disso – em algum momento essa figura mitológica moderna vai ser lembrada como o ideal viril sempre pronto para bater antes de perguntar.

Onde assistir: 

Perdidos na Noite, John Schlesinger (Apple TV)

Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood (Globoplay, Telecineplay) 

O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee (Netflix) 

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