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Um dos clássicos do cinema brasileiro, “À meia noite levarei sua alma” é a estreia do personagem que marcou a vida do cineasta, José Mojica Marins, e praticamente fundou o gênero de horror no país.

A história é simples. O coveiro Zé do Caixão quer ter um filho. Como não consegue tê-lo com a esposa, abusa de Terezinha, a mulher do seu amigo. Traumatizada, ela se mata e promete voltar à vida para levar a alma de Zé do Caixão.

A criatividade de Marins – que dirigiu, roteirizou e protagonizou o filme – para driblar a visível falta de recursos com planos elaborados e um roteiro igualmente extraordinário, faz da experiência de ver “À meia noite levarei sua alma” algo único.

Logo de cara, Zé do Caixão provoca o público: “O que é a vida? É o princípio da morte. O que é a morte? É o fim da vida. O que é a existência? É a continuidade do sangue. O que é o sangue? É a razão da existência!”.

Marins usa o sangue muito mais do que um elemento físico e escreve seu personagem como uma encarnação dos horrores do seu tempo. Zé do Caixão é sádico, totalitarista, anárquico (a cena dele comendo carne em plena procissão de páscoa é uma prova do que tipo de símbolo que o personagem queria chocar). Mas sua maldade não é gratuita ou maniqueísta. Passar “o sangue” adiante é a herança da dominação.

Feito em 1964, “À meia noite levarei sua alma” é um filme de autor. A inventividade para unir temas complexos dentro de uma narrativa popular e todo o cuidado para que a produção não virasse algo risível, é realmente muito boa. A ambientação, os personagens desse universo e sobretudo os diálogos impactantes, mostram o domínio de Marins na criação do filme. O que é bárbaro é como o diretor pega todos os elementos do gênero e consegue criar algo brasileiro, original, que jamais poderia ter sido feito igual em outro lugar.

Dá até pra dizer que Marins antecipa alguns fundamentos do Manifesto Antropofágico, símbolo do movimento Tropicalista e inspirador do Cinema Novo, quatro anos depois, em 1968.

Quando lançou a “Sina do Aventureiro”, Marins disse que o filme “tem uma miscelânea de Nordeste, de roupa nordestina com roupa gaúcha, com roupa americana. Eu misturo tudo, tem uma miscelânea.”

O final de “À meia noite levarei sua alma” é uma catarse dessa miscelânea onde o descrente Zé do Caixão é confrontado pelo próprio medo que causava.

Longe de ser trash e um sucesso de público quando foi lançado, “À meia noite levarei sua alma” inspirou gente como Tim Burton e rendeu outros dois filmes: “Esta noite encarnarei no teu cadáver” (1967) e “Encarnação do Demônio” (2008).

Aliás, a história de como o personagem nasceu é ótima: o diretor sonhou que estava sendo arrastado por um cemitério e foi colocado de frente a uma lápide com seu nome. Se é verdade ou invenção, a única certeza que o público tem é que Zé do Caixão é um baita personagem. E esse primeiro filme é essencial para ver o quanto o cinema brasileiro é rico, original e genial.

Onde assistir: Globoplay, Telecineplay e Belas Artes à la Carte.

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