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Em 1970, durante o Regime Militar no Brasil, Raduan Nassar escreveu seu primeiro livro, o poderoso “Um copo de cólera” (Companhia das Letras, 95 páginas). Publicado só 8 anos depois, a história narra brevemente a relação entre um homem e uma mulher após uma noite juntos, e a violenta briga entre eles após o café da manhã. Se sabe pouco a respeito dos dois. Ela é uma jornalista. Ele, no meu imaginário, pode ser um professor ou alguém ligado à botânica. Também não há informação se são casados ou apenas amantes. Se encontram nesta fazenda, também sem localidade definida, mas que provavelmente é propriedade do homem. A clandestinidade deste relacionamento é dissecada com uma linguagem poética, mas cruel; carregada de amargura e ternura em medidas tão iguais, que não é possível entender de imediato a diferença entre os dois sentimentos. E essa forma de desestruturar o mundo a partir da linguagem e compor uma narrativa violenta, vazada em um fluxo de consciência, torna “Um Copo de Cólera” muito mais do que uma DR de casal. Não se trata de uma briga que acontece por motivos pequenos. Essas duas pessoas estão conectadas por uma ordem de sentimentos incompreensíveis e muito mais perigosos do que o amor.
Raduan Nassar
O corpo de um precisa do corpo do outro. É uma espécie de resistência estar ali naquela casa, naquele momento; se encontrarem e se violentarem da forma como eles fazem. Um tipo de excitação que não consegue achar uma forma de ser entendida por mais ninguém. Aliás, o modo como Raduan descreve essas passagens, botando carne nas palavras mais secas e mostrando que a incomunicabilidade entre os dois teria razões muito maiores do que a falta de amor, é muito cruel. Dói de ler mesmo. Por exemplo, no auge da briga, em um dos momentos mais sublimes da narrativa, ela o chama de fascista: “o mocinho grandioso é… um fascistão. E ela desatou sua sentença em dois tons, claramente distintos, e o que tinha no primeiro de forçada zombaria, aí enroscada uma ferina ponta de malícia, tinha de conclusiva seriedade no segundo” (pág. 66). A resposta dele à provocação dela é simbólica: “confesso que em certos momentos viro um fascista, viro e sei que virei, mas você também vira fascistas, exatamente como eu, só que você vira e não sabe (…) não há nada que esteja mais na moda do que ser fascista em nome da razão” (pág.67). Quem tem razão na briga? Isso não é interessante nem para o casal que está brigando, nem pro leitor. O centro da narrativa é a impossibilidade de dizer o que eles de fato estão sentindo um para o outro e um pelo outro. De expor “o corpo antes da roupa”, como um deles diz ao longo da história. No exato momento em que o livro foi escrito, os personagens refletiam um país dividido pela repressão.

E não há garantias de que eles não sejam dois agentes ou vítimas deste sistema. De alguma forma, a culpa, o amor, o medo e a desordem refletem exatamente o que eles são. E como Narciso, o personagem do mito grego que morre afogado encantado pela própria beleza e é citado na epígrafe de “Um Copo de Cólera”, eles estão condenados a olharem apenas para o que há de pior um no outro para sobreviverem.

Se o amor entre essas duas pessoas não poderia acontecer por algum tipo de repressão externa que nós não conhecemos, ele também não pode ser tranquilo longe de tudo e todos.

Aqui, a briga, por mais violenta e crua que seja, nasce como a única revolta possível.

E daí impedir que o outro vença a discussão talvez fosse uma forma de ambos não perderem um ao outro. Narrado quase que na totalidade por ele, o último capítulo é dito pela mulher e tem o mesmo título do primeiro, “A Chegada”. Como uma voz inversa, mas estranhamente parceira, a jornalista não confirma os fatos, não acrescenta informações.

Ao tomarem da cólera, o casal encontra alívio. É o santo graal do convívio eterno, do mistério mútuo para que dois animais domem os instintos e apenas vivam. Neste mundo turvo e ruim, que tortura e aprisiona puramente como uma demonstração de poder, em um canto no meio do nada, onde só há espaço para o sentimento mais básico, puro e humano, a repressão também pode ser uma forma de amor.

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