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A praia da Saudade, em Pernambuco, não pode ser usada por que há muitos tubarões. Alguns jovens mascarados fazem um vídeo para denunciar a situação. No mesmo lugar, uma petroleira tenta demover uma vila de pescadores para implantar um poderoso projeto de extração. 

Em “Piedade”, do diretor Cláudio Assis, a praia entra como um elemento importante de vida e morte, e usa uma premissa familiar com um forte apelo religioso, pra desenvolver uma história afetiva sobre identidade, lugar no mundo, história de vida. 

Omar (Irandhir Santos) é o pescador filho de dona Carminha (Fernanda Montenegro) que tocam o bar Paraíso do Mar, na praia da Saudade. Eles são assediados pelo executivo da PetroGreen, Aurélio (Matheus Nachtergaele), e faz o mesmo com o filho perdido de Carminha, Sandro (Cauã Reymond), dono de um cinema pornô.  

Essa teia de relacionamentos escuros, perdidos, que dependente do mínimo de compreensão para ser desenvolvida, é tratada com uma certa limpeza por Assis. Isso no sentido de que em vez da verborragia filosófica de outros filmes seus, como “Amarelo Manga” e “Febre de Rato”, ele busca o silêncio. 

O diretor de Piedade, Cláudio Assis.

A sutileza não precisa ser gritada, turva ou escondida. Ela pode, sim, ser super simples e ainda carregar uma forte carga dramática. 

A história dessa família tem um quê de inspiração bíblica. O filho de Omar, não por acaso chamado Ramsés, deixa isso claro. Omar chama as torres de exploração da Petrogreen de “Gafanhotos de Ferro”. Sandro é Moisés, o hebreu que foi largado nas águas do rio Nilo e encontrado pela mulher do Faraó. Ao ter que libertar os escravos da mão dele, anos depois, abriu o mar para o povo passar.

No caso, esse mar contaminado, cheio de tubarões e poluído da praia da Saudade, quer ser aberto por uma petroleira, mostrando que a religião nunca foi tão capitalista e pecaminosa quanto é no Brasil. 

Essa teoria é particular. O filme de Assis é bem mais simples do que isso. E mais bonito também. 

Ao focar na história de como Sandro vai reagir à nova família, e de como a ausência de uma relação com sua mãe verdadeira modificou sua vida, Assis cria uma espécie de conto cinematográfico. Algo que é uma metade, não necessariamente uma história completa. É uma característica de outros filmes, mas que em “Piedade” está madura, depurada. 

Fernanda Montenegro em cena com Cauã Reymond

As ótimas interpretações do elenco ajudam na integração entre filosofia e afeto. Todos os atores conseguem, em menor ou maior grau, passar exatamente o peso de ver sua identidade ameaçada. A história deles está sendo apagada sem qualquer modo de impedir isso. 

Cauã Reymond é um destaque. Não só porque ele tem o personagem mais difícil e cheio de conflitos. Ele arruma um jeito de fazer Sandro ser mais do que um joguete na mão dos outros, um amargurado pela família. Como dono de um cinema pornô que não tem pudor em colocar câmeras no quarto dos clientes pra manter a segurança, Sandro é um homem que evita surpresas. Já se acostumou com aquela podridão. Saber que a mãe esteve perto dele durante tanto tempo não é um alívio, é uma aflição. 

Assis também movimenta sua câmera com planos longos, alguns planos-sequências lindos (o que abre o filme é cheio de significado e lembra muito Dogville, de Lars Von Trier), e silêncios que dizem mais do que qualquer diálogo. Nestes pequenos instantes onde ele transfere a alma e a imensidão do mar para dentro do olhos de cada personagem, entendemos que Piedade não é uma cidade. Nem a praia da Saudade é uma praia. “Daqui, Piedade parece inofensiva, num parece?”, diz Dona Carminha em uma espécie de sonho com Sandro.

Na obra de Assis, a praia e a cidade são apenas os lugares que essa gente tem pra deixar de existir. 

Onde assistir: Now, Vivo Play, Apple TV.

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