globo


O sol está se pondo no final de um lindo dia na praia. A luz é perfeita, iluminando o rosto de seus filhos enquanto eles brincam nas ondas. Você pega o seu celular porque quer se lembrar deste momento perfeito pra sempre. 

Péeeéé. Ê-rou.

Antes do seu clique, deixa eu compartilhar um pouco do que a ciência tem a dizer sobre isso: tirar fotos não é a “ferramenta de captura do momento” perfeita que você imagina.

Eu sei que o clique dá aquela sensação de segurança, como se a gente tivesse “salvado” um momento, uma memória, para sempre. Quase do mesmo jeito que a gente salva um arquivo importante no computador ou na nuvem.

Mas tirar muitas fotos pode diminuir a capacidade do cérebro de reter memórias, diz Elizabeth Loftus, professora de ciências psicológicas da Universidade da Califórnia, Irvine. Ou seja, você garante o registro, mas meio que perde a memória do evento em sí.

Funciona de duas maneiras, explica Loftus: ou transferimos a responsabilidade de lembrar dos momentos em que tiramos as fotos ou ficamos tão distraídos com o processo de tirar a foto que perdemos o momento por completo.

Mas não precisa parar de fotografar. Se você for mais intencional e assertivo com as fotos que tira, elas podem realmente a capturar aquele momento sem impedir que você possa vivenciar e guardar tudo com o seu próprio cérebro. Ou, com a sua alma, se preferir uma expressão mais poética.

A fotografia “terceiriza” memórias

Esse processo de “descarregar” nossa memória é apropriadamente chamado de “efeito de prejuízo na captura de fotos”. 

Como funciona?

“Quando as pessoas confiam na tecnologia para lembrar de algo por elas, estão essencialmente terceirizando sua memória”, diz Linda Henkel , professora de psicologia da Fairfield University. “Eles sabem que a câmera está capturando aquele momento, então não prestam muita atenção.”

E esse fenômeno existe há muito tempo. Por exemplo, se você anotar o número do telefone de alguém, é menos provável que se lembre dele, porque seu cérebro acha que não precisa guardar essa informação porque ela já existe em outro lugar (até a gente perder o papelzinho, claro).

O efeito foi explorado pela primeira vez em um estudo de 2013, que a professora Henkel conduziu, mostrando que as pessoas tinham mais dificuldade em se lembrar de objetos de arte que tinham visto em um museu quando tiravam fotos deles. Desde então, o estudo foi replicado em 2017 e 2021 .

As descobertas da professora são semelhantes às de um estudo da Science de 2011 sobre o “efeito Google”, que descobriu que as pessoas não se lembram das informações tão bem quando sabem que podem recuperá-las mais tarde da internet ou pelo dispositivo em que foram salvas.

“Assim como acontece com as informações, quando tiramos fotos, estamos transferindo a responsabilidade para um dispositivo externo”, diz Julia Soares , professora assistente de psicologia da Universidade Estadual do Mississippi.

Você presta atenção na câmera e pronto: perde o momento

A outra explicação para o comprometimento da memória quando você tira aquela foto, descobriu Soares, é o desligamento da atenção.

É o que acontece quando nos distraímos com o processo de tirar uma foto. Você experimenta a maneira mais confortável de segurar seu celular, busca o enquadramento perfeito (na horizontal? Na vertical? Tombadinho? Um close? Mais aberto?), espera o melhor momento (todo mundo sorrindo?), confere o foco, o fundo, etc, etc. Tudo isso usa energia cognitiva ou recursos de atenção que poderiam ajudar a codificar ou reter essa memória em nós mesmos.

Infelizmente, a falta de atenção fica ainda mais provável durante momentos marcantes, como quando alguém está recebendo um diploma ou assoprando as velas do bolo de aniversário. Esses são momentos em que temos a pressão adicional de não perder esse momento único de jeito nenhum e a nossa concentração no ato da foto aumenta ainda mais.

Nossos cérebros ficam ocupados em criar a foto perfeita, em vez de criar a memória perfeita.

Como tirar fotos com propósito pode ajudar na memória

Existem, no entanto, algumas vantagens em tirar fotos na retenção de memória – quando o processo é feito com propósito.

“Sabemos por muitos estudos que as fotos são boas pistas de memória”, diz Soares como um exemplo dos benefícios de tirar fotos, “então a história não é tão simples como ‘tirar fotos é ruim’. “

Um estudo de 2017 descobriu que tirar fotos pode realmente melhorar nossas memórias em certas circunstâncias.

O estudo mostra que, embora o ato de tirar uma foto possa ser uma distração, o ato de se preparar para tirar uma foto focando nos detalhes visuais ao nosso redor tem algumas vantagens.

Alixandra Barasch , professora de negócios da Universidade de Nova York e coautora do estudo, diz que quando as pessoas planejam o que desejam fotografar e ampliam elementos específicos do que desejam lembrar, as memórias podem ficar mais enraizadas no subconsciente.

Outro benefício das fotos é que elas podem ajudar a relembrar momentos com mais precisão, já que nossas memórias são falíveis. “O cérebro humano não é um sistema de armazenamento passivo. Ele é ativo e dinâmico”, explica Henkel. “Nosso cérebro não grava nossas experiências. Ele as constrói com base em nossas crenças, atitudes e preconceitos.”

Ela diz que quando nos lembramos de algo, é uma memória que foi “reconstruída através do filtro de novas informações, novas experiências e novas perspectivas”. Dessa forma, fotos ou vídeos nos ajudam a relembrar momentos como eles realmente aconteceram.

“As memórias desbotam e podem ser contaminadas sem um registro visual que as respalde”, diz Loftus. “Uma foto é um excelente veículo para trazê-lo de volta a um momento.”

Dicas: como fazer a fotografia ajudar – e não prejudicar – suas memórias

01. Peça para outra pessoa tirar as fotos. 

Essa é a chave, diz Soares. Peça a um amigo ou membro da família para supervisionar as fotos em eventos especialmente importantes “para que você possa se envolver totalmente com o evento em si”.

02. Seja intencional com as fotos que você está tirando. 

Escolher o que fotografar de forma mais deliberada também ajuda. “A pesquisa sugere que decidir o que fotografar pode reduzir os efeitos nocivos na memória e até mesmo aumentar o prazer”, diz Nathaniel Barr, professor de criatividade e pensamento criativo no Sheridan College.

Na mesma linha, a Henkel sugere considerar por que você está tirando a foto. “Se pensarmos com mais atenção em nossos objetivos ao tirar fotos, podemos melhorar nossas memórias de nossas experiências”, diz ela

03. Concentre-se nos detalhes. 

Se você mergulhar nos detalhes de uma cena ao se preparar para tirar uma foto, esse processo pode ajudar a ancorar as memórias. À medida que pesquisamos o campo visual para decidir o que capturar em uma foto, temos mais probabilidade de guardar esses detalhes na memória.

04. Tire algumas fotos boas e em seguida desligue o celular. 

Se o seu objetivo é se lembrar de uma viagem ou de evento especial, limite o tempo com a câmera na mão. Tire algumas fotos logo de cara e depois guarde a câmera e mergulhe no momento.

05. Olhe suas fotos regularmente. 

As fotos funcionam como uma ferramenta eficaz para retenção de memória apenas se pararmos para realmente revisitar e olhar as fotos – o que muitos de nós não faz, principalmente quando temos milhares guardadas. Precisamos ter tempo para olhar as fotos após as experiências e reativar essas representações mentais.

06. Organize suas fotos em álbuns. 

A melhor maneira de garantir que você olhe suas fotos regularmente é torná-las gerenciáveis ​​e acessíveis, uma vez que é improvável que você fique rolando páginas e páginas de fotos. Organize-as em um álbum digital ou imprima algumas.

Enfim, fotos são incríveis. Congelam o tempo, eternizam momentos até para quem não os viveu e desenvolvem uma olhar mais sofisticado. Mas isso não justifica a perda de um vivência. O truque é usar a fotografia como um complemento, uma aliada e assim capturar e criar as melhores memórias possíveis da sua vida.

Como diria John Lennon em “Beautiful Boy”…

Life is what happens to us while we are busy making other plans

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