No artigo “Tese sobre o conto” o escritor argentino, Ricardo Piglia, enumera alguns caminhos possíveis para a criação da narrativa na forma breve. Como síntese, ele diz que “o conto se constrói para fazer aparecer artificialmente algo que estava oculto.”

Esconder detalhes para então revelar tramas obscuras, amorais e cruéis, é o que determina “Anos de Chumbo e outros contos” (Companhia das Letras, 168 páginas), a estreia de Chico Buarque no conto. São oitos histórias narradas em primeira e terceira pessoa, aparentemente sem um tema único, mas que se conectam por uma crítica direta aos tempos atuais. A covid-19, por exemplo, surge logo no primeiro texto, “Meu Tio”. A citação é discreta. O título, que provavelmente referencia o filme de mesmo nome do diretor francês, Jacques Tati, é uma ironia. O tio da história é uma figura sórdida, mas vista como um bonachão; alguém que parece paternal, ainda que faça os atos mais inescrupulosos. Narrado por uma menina que é prostituída pelos pais a esse tio, a trama que emergi de um passeio entre ele e “sobrinha” pelas ruas do Rio de Janeiro é a de um cidadão de bem, de alguém insuspeito.

A prosa de Chico é tão elegante que a gente nem se importa de uma menina usar palavras como “irriquieto” pra adjetivar o tio que a leva pra passear. 

No texto seguinte, “O passaporte”, o escritor conta como um “grande artista” detestado por todos trava uma guerra particular com um suposto inimigo no saguão do aeroporto, à caminho de Paris. Se o texto é um espelho de um episódio real, onde um político nacionalmente conhecido criou piada por ter viajado para a capital francesa, só Chico pode dizer. Mas o escritor não gasta a referência à toa e transforma a história em uma espécie em uma comédia contida para satirizar a grosseria da elite que viaja pro exterior.

A artilharia de “Anos de chumbo” é pesada. “Cida” e “Copacabana” se estendem sob um tom onírico para contar a história de uma mendiga grávida que acaba morta,  e os delírios de um homem que conversa com Pablo Neruda e Ava Gardner em um dos bairros mais famosos do mundo. São dois textos poéticos, que poderiam passar batido se não escondessem elementos tão simbólicos e sutis, o que pede uma segunda leitura.

Em “Para Clarice Lispector, com candura”, Chico Buarque se aproveita de um meme onde diversos textos da internet são atribuídos à Clarice Lispector. Em vez de criar uma trama amarga, ele ri de um personagem obcecado por ela que escreve seus textos e assina com o nome da autora. Logicamente, é um conto que homenageia a autora pela citação direta. Entretanto o oculto a ser flagrado pode ser a obsessão atual a viralização? Talvez, mas também cabe a busca por uma voz, por espaço ou por um tipo de “candura” que não existe nem na internet nem fora dela. 

“O sítio”, o penúltimo conto, coloca dois personagens quase desconhecidos pra esperar pela passagem “da peste” em um sítio. É um dos mais longos do livro e com alguns elementos de horror, como a invasão dos urubus que acomete o lugar, e a chegada de novos inquilinos ao lugar. É um texto soturno, que trata o isolamento como um tipo de loucura coletiva, não importa em qual escala ele aconteça. A forma como Chico conta a história mantém o conto aceso na mente mesmo depois do ponto final. Mas, o final que pode amargar.

“Anos de chumbo” fecha o livro, e novamente Chico Buarque usa uma criança para entender a relação de poder entre um major e um capitão. O menino vê a mãe traindo o pai com o major, e ainda que não entenda os jogos hierárquicos que determinam o triângulo, o leitor capta a tensão. 

Um dos trechos chama atenção pelo brilho e imaginação para narrar o sadismo da transa entre o major e mãe, já que ambos se excitam com o homem elucidando as sessões de tortura que ele praticava com os presos políticos. De novo, um personagem infantil que narra a história com a cadência de um erudito… não chega a prejudicar a história. No Buarqueverso as crianças são assim.

“Anos de chumbo e outros contos” pode não ter o mesmo peso de outras obras do escritor, como “Estorvo”,” Leite Derramado” e o mais recente romance, o ótimo “Essa Gente”. Ainda assim, através dessas histórias curtas que puxam do Brasil de hoje uma boa dose de inspiração, criadas como o repertório de álbum, Chico Buarque mostra seu  domínio único da linguagem e a capacidade original de revelar “artificialmente algo que estava oculto” sem deixar à mostra os métodos cruéis do próprio interrogatório. 

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