Criatividade, liberdade, marketing e a modernidade líquida

A Confrar.ia trouxe tendências de mercado para o futuro da liberdade e marketing. A modernidade líquida de Bauman concorda.
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A ideia da Modernidade Líquida

Bauman define liberdade como o equilíbrio entre “imaginação/desejos” X “Capacidade de atingi-los”. Quando houver muitos empecilhos para fazer o que deseja, você se sentirá aprisionado, situação mais comum quanto mais anos olhamos para atrás quando havia instituições centralizadas controlando o que poderia ser feito, publicado e compartilhado para a massa da população.

Equilíbrio entre criatividade e limitações
Ideia de liberdade de Bauman, a limitação não pode ser maior do que nossa criatividade

Exemplo

Coloque, por exemplo, um cachorro em uma fazenda e propicie os suprimentos de sobrevivência básicos: água, comida, espaço geográfico e um par de sua espécie, mas longe da cidade. Mesmo que já tenha tido contato com seres humanos, se sentirá livre, pois não possui capacidade imaginativa para desejar muito mais do que tem acesso e tudo o que seus instintos anseiam é suprido.

Por outro lado coloque um homem já civilizado nessa mesma situação e se sentirá limitado, pois sua capacidade imaginativa deseja sempre algo novo, entretenimento do mais diverso, artigos de comodismo, água quente para tomar banho, celular, internet, livros etc.

Rápido demais

A crítica de Bauman vem na premissa de que a velocidade da evolução tecnológica diminuiu os impedimentos físicos de quase tudo e trouxe grande disponibilidade e acesso a bens de consumo. Temos acesso a produtos fabricados na Ásia, com matéria-prima americana e tecnologia europeia, podemos visitar e fazer network no mundo inteiro mesmo sem nem sair de casa. Como não temos muitos impedimentos, se seguirmos a ideia de liberdade que resumi no começo somos tão livres como nunca.

O problema é que ao mesmo tempo reduzimos nossos anseios e limitamos os desejos a itens de consumo para atingir a felicidade: sempre precisamos de algo novo para sentirmos felizes, porém tudo muda tão rápido que quando conseguimos aquilo, já está defasado.

Gráfico do desequilíbrio entre criatividade e limitações, de modo que a criatividade é menor do que nossas limitações na modernidade líquida
Temos menos limitações, é hora de desenvolver nossas capacidades criativas

Cada um por si

Ao mesmo tempo, Bauman defende que nos individualizamos muito, podemos ser cada vez mais nós mesmo, definir a própria regra de sucesso e crenças (claro que ainda existe caminho a avançar na aceitação), porém tornamo-nos mais solitários, sedentos por exibição e menos privacidade: todos querem ser influenciadores, famosos, likes, engajamento etc. (essa conversa já está até saturada). O engraçado é que antigamente o medo de George Orwell no livro 1984 era o Grande Irmão vigiando o mundo e todos temiam perder a privacidade

Por consequência nos afastamos dos outros, talvez até esquecemos que somos humanos rodeados por humanos com problemas parecidos. Não existe mais o ímpeto de atuar em comunidade para solucionar os problemas comuns que nos afligem.

No fim o que o autor quis com a ideia de modernidade líquida foi apontar uma nova direção para a liberdade ao aumentar também nossa capacidade imaginativa e priorizar os laços humanos que fundaram a humanidade, ao invés de conexões fracas entre cada um.

E as marcas nessa história?

As marcas sofrem junto, afinal se prometer algo e não cumprir o consumidor pode fazer uma reclamação pública no Google e não recomendá-la a ninguém, enquanto procura um dos incontáveis concorrentes disponíveis. É tão simples e prático mudar quando sua expectativa não for atendida que criar advogados da marca se tornou ainda mais complicado, pois qualquer passo em falso na estratégia de comunicação pode criar expectativas altas prontas a desmoronar no primeiro vacilo.

Confrar.ia e as tendências

Comecei a assistir o Confrar.ia sem muita pretensão, mas fiquei impressionado como apresentou tendências que vão de encontro com a modernidade líquida de Zigmund. O evento apontou tendências para a comunicação, entre elas o crescimento das comunidades, pois a sociedade(leia consumidores se preferir) está começando a seguir passos para olhar seu entorno e como as empresas devem seguir o mesmo rumo, ouvindo ativamente e o que os consumidores dizem, compartilham ativamente.

Além disso devemos apontar nossos esforços a melhorar nossa capacidade de criar, imaginar e pensar, afinal os robôs farão o esforço repetitivo e mecânico de agora em diante e a mente será nosso diferencial.

Acredito que nós, comunicadores, devemos refletir a respeito, como a relação de consumo será afetada a longo prazo com tantas mudanças surgindo, seja lá o quanto “longo prazo” signifique nessa rapidez(parafraseando Bauman). Gosto de pensar que talvez a grande promessa de revolução o Metaverso possa, quem sabe, aproximar as pessoas dentro do ambiente digital e fortalecer os vínculos por lá, porém os efeitos no mundo real serão igualmente positivos ou não? Talvez só o futuro dirá.

Éverton Varola

Sul-vargem-grandense, fã de música, publicidade, jogos e filmes que ama estar envolvido em algum projeto novo por aí. Estou sempre lendo o UoD, mas talvez ache um ou outro post meu em algum canto.

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