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A experiência de Schrödinger

Foi a hora das marcas descerem de seus discursos, seus manifestos de banco de imagens para ações mais que práticas e úteis e não caronismos de conceito.
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Estão todos aí? Me ouvem bem? Vamos desligar as câmeras? Coloca no mudo quem não estiver falando.

Estávamos em isolamento e nunca estivemos tão juntinhos que, às vezes, mal cabíamos na tela do hangouts. Mas essa é uma situação privilegiada e particular; 3% ou menos da população que se deparou com o grande dilema de como conviver com seus filhos, companheiros, como se exercitar e garantir um ambiente saudável e trabalhar de casa, tomar água, fazer yoga?

Para quem achou absurdo ter que sobreviver ao “isolamento”, sugiro a leitura do Diário de Anne Frank em quadrinhos, do Ari Folman, e ilustrado pelo David Polonsky. Assim dá pra sacar rapidinho o que significa restrição, e ser mais generoso e sincero com esse termo.

Me lembrei também a campanha clássica da DIESEL: com o calendário com altas doses de ironia do today we work hard, onde jovens sofrem para conectar a TV ou levantar uma mala. Enquanto nos preocupávamos em nos readaptar ao básico de nossas vidas, boa parte da população mundial estava exposta a um vírus mortal, com a habilidade de se espalhar incrivelmente rápido.

O momento era ímpar pelo compartilhamento desta experiência. A diferença entre algo acontecer e algo acontecer com todos sabendo que isso tá acontecendo. E todos sendo convidados a tomar medidas, mas cada um com suas realidades ali sobrepostas. Como dizer que essa experiência, ainda que coletiva, não suscita sentimentos diferentes e às vezes antagônicos ?

O dilema entre o individual e coletivo, entre o proteger a si e sua família e preocupar-se com todos, parece que fomos jogados também a um nível primitivo de sensações de sobrevivência que nos remete a um tempo que a mão cabeluda e invisível do mercado nem existia ou serviria para ao menos para coçar nossas costas.

Esse momento coletivo nos forçou a olharmos para as pessoas e a nós mesmos com um filtro de humanidade, e economicamente falando se quisermos realmente ainda descer pro play, vamos ter que pensar nisso também: sem pessoas consumindo, vivendo, sem mercado, sem mãozinha também. Foi a hora das marcas descerem de seus discursos, seus manifestos de banco de imagens para ações mais que práticas e úteis e não caronismos de conceito.

O sistema estava exposto e percebemos que só salvando as pessoas é que poderemos reconstruir um novo seja lá o que for porque a dúvida também foi o grande mosntro que nos assombrou.

Será que aprendemos mesmo? Saimos/sairemos melhor para esse novo normal?

Ao ver isso tudo por vários observadores e realidades, percebemos a multiplicidade de possibilidades do sistema, e o quão ele está interligado e a diferença brutal entre seus elementos.

Se estávamos acostumados à disseminação rápida das informações, nestes últimos anos, pela primeira vez, vivenciamos em conjunto medidas que impactam imediatamente e cortam de maneira transversal: classes sociais, culturas, economias. Não foi um setor da sociedade convidado a fazer esse alinhamento, foi um movimento conjunto que nos colocou a dimensão de humanidade (macro) e comunidade (micro), e nos fez considerar a sobreposição de várias possibilidades do sistema, afinal, fomos obrigados a, mais do que repensar relações (o que soa filosófico e elitista), mudar nossas rotinas de fato e no ato.

O mundo todo se socou em casa em poucas semanas num movimento conjunto nunca antes acompanhado. Se sofremos nós que temos casa e home office, se temos xilique de não ir passear nos lugares instagramáveis que amamos, imagina o que é o conceito: isolamento para quem divide 20 metros quadrados com mais 8 pessoas, para quem tem um lar abusivo, para quem precisa do movimento da rua para seu ganha pão, para quem trabalha na indústria, na saúde? E agora nessa retomada, esse novo normal nos mostra que o velho tão pouco gozava de normalidade também.

Como humanidade espectadora, estávamos mais acostumados a observar tragédias pontuais ou guerras do que a reorganização da vida cotidiana e impacto que ela tem.
Estávamos permeados por sentimentos primitivos de sobrevivência individual (esse fetiche no papel higiênico, a visível preferência pelo Nissin sabor carne revelados pelas gôndolas dos supermercados) e sentimentos coletivos de “estamos todos no mesmo barco”.

É o sentimento global com impacto local e pessoal. Não existe como transportar essa experiência sem dissociar ela de onde está esse observador e todas as variáveis do seu ambiente. Viver a dimensão humana na sua plenitude é quando nos damos conta que essa jornada é finita. E que tudo passa pelas pessoas e temos negligenciado o modo de vida da maioria, pois o lifestyle é bem mais desigual do que um board do Pinterest.

E agora que aparentemente normalizamos alguns novos hábitos como analisar dados, cuidar da nossa saúde e da qualidade da informação o que mais podemos fazer também?

Ao meu ver é preciso repensar nosso modelo de humanidade além das fronteiras individuais. É preciso entender que não basta emular humanidade nas marcas se não há humanidade na visão do processo produtivo e criativo. Propósito e todo impacto da cadeia precisam estar alinhados, pois depois do vivenciamos não sobreviveremos nem as pessoas nem o mercado sem uma reinvenção que olhe para a base da pirâmide sem olhar de cima mas estando ao lado.

Além de uma situação de saúde pública, seríssima e decisiva para a humanidade, é hora de repensar suas formas de produzir, criar, distribuir e se relacionar.

E, nesse contexto, como diria Einstein em carta a Schrödinger:

“A realidade é algo independente do que já fora experimentalmente visto.”

É uma construção constante, resultante de estados múltiplos e latentes que só se concretizam no ato, na ação.

É hora de ver ações práticas de alto impacto para garantir a sobrevivência do coletivo.
Não é assistencialismo de um grupo em relação a outro é instinto de sobrevivência do próprio sistema
: o sistema humano que é o que sustenta a porra toda.

Se eu já fui mais descrente de que isso ocorresse por consciência ou evolução mental que ocorra por necessidade básica: ou nos reinventamos ou desaparecemos. Update or die, na veia mesmo.

No fim das contas, o isolamento quebrou 3 paradoxos para mim:

  1. Estruturas muito grandes conseguem sim se movimentar com agilidade para se adaptar desde que elas precisem fazer isso para sobreviver
  2. A experiência não decorre do cenário, e sim das interações geradas. Mesmo isolados ainda temos impacto nas nossas ações.
  3. Um sistema pode até rodar bem, mas nunca está pronto. A ruptura de um sistema estabelecido deve sempre ser o ponto de partida para a construção de um novo mais eficiente.

Taise Kodama

Head de Design & Digital no Gad', foodhunter e cozinheira amadora, entusiasta de sk8, futebol, gatos e uma boa filosofada de bar. Mãe do Oliver e do Otto.

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