Internet: Estrada da Fúria

Furiosa, personagem de Mad Max Estrada da Fúria, é um belo exemplo do sentimento mal compreendido que habita a grande maioria de nós que vive nos dias de hoje.
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Seus olhos verdes cheios de ira se destacavam em um rosto manchado de sangue, suor e graxa.

Não havia tempo para lágrimas.

Era ensurdecedor o ruído dentro da cabine.

O motor estava em chamas, mas o seu pé não parou nem por um segundo de acelerar aquela imensa máquina.

De todos os lados vinham inimigos prontos para atirar em sua cabeça, mas a sua determinação de salvar seus amigos acabou por atropelar qualquer desafio que se colocasse à sua frente.

Furiosa, personagem de Mad Max Estrada da Fúria, é um belo exemplo do sentimento mal compreendido que habita a grande maioria de nós que vive nos dias de hoje.

Existe uma constante e inexplicável sensação de fúria habitando nossas mentes.

Nos sentimos numa fuga que parece nunca acabar.

A atual pressa que nos obriga a acelerar nessa estrada em que estamos viajando pela vida é um decreto de quase loucura.

Saúde mental é um bem valioso para poucos.

Nem mesmo os ricos e poderosos podem se dar ao luxo de dizer que estão imunes ou protegidos contra essa maldição moderna da aceleração constante, que nos obriga a fugir de inimigos que nem sabemos quem são e por que estão nos perseguindo.

É nesse cenário que me lembro de uma das habilidades mais requisitadas e valiosas da atualidade: o pensamento crítico.

No universo de Mad Max existe muito deserto e pouco combustível (nos tempos de Mel Gibson) e pouca ou quase nenhuma água (agora, com Charlize Theron).

Atualmente, há um excesso tão absurdo de informações que parece estarmos em um deserto.

Falta-nos água e combustível para atravessar um volume tão grande de areia.

Miragens aos montes nos enganam, fazendo parecer que encontramos algum tipo de verdade que quase sempre se mostra mera ilusão.

Estamos perdidos, no meio de um vazio sem fim, sem saber se seguimos em frente ou retornamos para uma fonte de água conhecida, mas que pertence a um passado, às vezes, amargo.

Pensamento crítico é uma habilidade poderosa.

Pessoas “críticas” são questionadoras de verdades absolutas. Para elas tudo pode ser reeditado, reescrito, refeito. Nada está acabado até que termine. E mesmo que pareça estar finalizado ainda há esperança de ir um pouco mais além.

A crítica, se usada com sabedoria, tem o poder de mudar o rumo das coisas de forma positiva.

Mas, como ser crítico se vivemos em um imenso deserto digital onde nos sobram informações e quase nada de consciência?

Como ser estável emocionalmente em um mundo em que nos viciamos com a dopamina nossa de cada dia (oops, milissegundo), que nos alimenta a alegria enquanto assistimos a um insano feed de vídeos que faz a vida parecer não ter sentido algum?

No balcão da padaria, enquanto aguardo para ser atendido, vejo um homem pequeno e de rosto alegre se comunicando com a balconista.

Ele não usa palavras, mas gestos que nem são sinais de libras, apenas gestos que ele mesmo inventou para conseguir expressar suas emoções.

Para minha imensa surpresa, eu também entendi o que ele queria dizer com cada abanar de braços e careta combinados.

Foi uma experiência incrível.

Talvez, talvez mesmo, o pensamento crítico seja o resultado de uma mente que se permite prestar atenção aos detalhes mais finos do que acontece ao nosso redor.

Talvez seja uma habilidade que exija que nossos olhos vejam um pouco mais além de nossos próprios interesses ou daquilo que imaginamos saber.

A crítica pode e deve abrir nossos olhos, antes de querer fazer o outro enxergar alguma coisa.

O pensamento crítico saudável deve vir de uma cultura que privilegia na educação habilidades como imaginação, conexão, abstração, complexidade, paradoxo, curiosidade, ousadia, persistência e persuasão.

Na infância temos uma imaginação fértil e uma energia incrível para inventar ideias e contar histórias. Mas, com o passar do tempo, isso acaba virando um deserto, onde nos restam apenas fúria, areia e uma infinidade de certezas inventadas.

O mundo colorido e vibrante que conhecemos hoje é mais assustador do que deslumbrante.

Pensamento crítico é a água necessária para tornar esse lugar árido em um jardim possível.

Questione suas certezas.

O pensamento crítico não serve apenas para atacar inimigos externos, como muitos de nós ainda acreditam. É preciso uma autoavaliação do que está em declínio de bom senso e como nos relacionamos com a nossa própria essência.

Gritamos com as pessoas porque parece existir um abismo entre nós e elas.

Nos reaproximar das pessoas, mesmo que já estejamos perto uns dos outros, é um desafio imenso.

Somos passageiros, protegidos dentro de nossas mentes, e tudo parece tão confortável.

Talvez tenhamos perdido parte da sensibilidade que poderia fazer alguma diferença. Resolvemos tudo com nossas telas sensíveis ao toque, mas nossos sentidos parecem estar desconectados da realidade.

Diversifique. Ouça o que as pessoas têm a dizer. Compare ideias. Coloque seus pensamentos em perspectiva. Mude o ângulo de observação.

A melhor crítica é aquela que começa dentro de nós e, de alguma forma, transforma positivamente um outro alguém, mesmo que distante.

Preencher vãos deveria ser o papel da crítica, principalmente entre as pessoas.

Se não somos capazes de olhar para dentro e ver algum valor, e daí nos conectar e produzir algo com outro ser humano, nunca poderemos dizer que a crítica nos valeu alguma coisa.

A colaboração é o único e suficiente combustível capaz de mover a humanidade.

O deserto e a estrada da fúria, ou seja, o excesso de informações e a Internet são uma realidade.

Faltam água e combustível, digo, bom senso e o pensamento crítico.

Sobreviver a isso será o grande desafio para a humanidade daqui em diante.

Estamos todos com sede.

Você prefere uma taça de crítica ou de fúria?

William Barter

Consultor de criatividade em cultura colaborativa educacional e empresarial.

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