Coffee Break #5: cinco obras sobre o crepúsculo da maternidade

Narrativas que colocam luz no tema maternidade — sem qualquer tabu
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No surpreendente livro O Conto de Aia — The Handmaid’s Tale, de 1985, a escritora canadense Margaret Atwood apresenta um mundo obscuro, tomado por uma ditadura fundamentalista, cujo contexto traz as mulheres numa posição subjugada. Enquanto algumas se tornaram esposas submissas, outras ganharam apenas uma função: reproduzir.

Assistir a série de TV (adaptação direta da obra literária) é uma missão por vezes pesada, pois traz uma grande contextualização, além da violência bem explícita. Expandindo a trama, a obra dialoga com os tempos sombrios em que vivemos, pautados pela atual perda de direitos das civis em países tão democráticos e livres como são conhecidos os Estados Unidos.

A história acompanha Elizabeth Moss na pele de June, uma jovem recém-casada e mãe, que é raptada com a sua filha e passa a ser uma “aia”, algo como uma mulher que acompanha um casal na função de reprodutora — ação justificada pelo mundo viver uma onda de baixa natalidade. As “aias” são escolhidas pela fertilidade e acusação de adultério no passado.

Apesar de ter uma rica narrativa, trazendo diversos debates sobre a sociedade patriarcal, misógina e o fundamentalismo religioso, The Handmaid’s Tale oferece uma visão intimista sobre uma mulher que luta diariamente nessa sufocante realidade. Ela busca a esperança em detalhes e encontra, de forma nada romântica, uma paixão.

“Alguns dias eu era mais racional. Não definia aquilo, para mim mesma, em termos de amor. Dizia: em alguma medida, criei uma vida para mim mesma, aqui. Deve ter sido assim que pensavam as esposas dos colonos e mulheres que sobreviviam às guerras, se ainda tivessem um homem. A humanidade é tão adaptável, diria minha mãe. É verdadeiramente espantoso as coisas com que as pessoas conseguem se habituar, desde que existam algumas compensações”. 

— The Handmaid’s Tale, Margareth Atwood.

Como uma boa obra de ficção científica, a história da Aia, nada mais é do que um reflexo da sociedade em que vivemos. E nem é exagerada. É possível encontrar em diversas culturas diferentes níveis dessa misoginia e do patriarcado, seja na política, igrejas ou nos lares. Como não lembrar da retomada do Talibã em Cabul e o receio de retrocessos por conta dos direitos das mulheres? A violência sexual ou o feminicídio recorrente? A perseguição das mulheres jornalistas? Ou imaginar que a sociedade ocidental contemporânea ainda tem menos oportunidades e salários menores para mulheres?

As “compensações” que Atwood apresenta para a sua personagem, June, são aquelas que, dependendo do ponto de vista, podem ser encaradas como maldições da vida mesmo em realidades ensolaradas. Vão desde esse “amor” inimaginável até o nascimento de uma filha que oferece um alívio nas sombras desse mundo tão distópico, porém, tão real. Em casamentos de aparências, entre abusos psicológicos… A busca por compensações é diária.

Entre muitas histórias já representadas no cinema, algumas valem uma atenção extra. Cada protagonista, diante os desafios da maternidade, busca suas compensações.

Um filme: Pieces of Woman (Kornél Mundruczó)

Em um momento de forte trauma, a tendência é nos perdermos. Reconectar e restabelecer a ponte com nós mesmos passa a ser um objetivo um tanto difícil, porém, necessário.

Essa é a essência de Pieces of Woman, longa do diretor húngaro Kornél Mundruczó e que se passa em Nova York. A história narra o traumático parto da jovem Martha Weiss (Vanessa Kirby) que termina na morte de seu bebê, fruto da relação com o marido Sean Carson (Shia LaBeouf). Realizado em casa pela parteira Eva Woodward (Molly Parker) que passa a ser responsabilizada e acusada de negligência, o parto, filmado em plano sequência, é um dos pontos altos do filme, destacando a tensão e a dor em encenações de alto nível.

Após o trágico evento, o filme parte para mostrar os desdobramentos do ocorrido, dando grande destaque ao luto de Martha e as válvulas de escape que outros personagens escolheram buscando alguma consolação. Pontuado pelas estações do ano que vão trazendo também a construção de uma ponte como analogia à reconexão de Martha com ela mesma, a história segue traçando as vulnerabilidades da protagonista enquanto seu marido se entrega aos vícios e ao sexo sem culpa até ser corrompido por completo ao aceitar dinheiro para sumir.

Outro simbolismo muito presente no filme é a maçã. Seja no cheiro que Martha alegou sentir do bebê durante poucos minutos de vida, seja na semente que a mãe passa a tentar fazer germinar (metaforicamente, pode-se entender como a busca por um renascimento). Maçã essa atrelada diretamente com o feminino, além de ser o “fruto proibido”. Não à toa o nome de parteira, julgada e condenada pela opinião popular, é Eva.

Em Pieces of Woman, a culpa e o fruto proibido assombram mulheres desde sempre. Culpa essa que é amplificada em traumas e requer muita resiliência na superação ou simplesmente na busca por compensações para seguir adiante.

Um filme: A Filha Perdida (Maggie Gyllenhaal)

A culpa também é um dos sentimentos presentes no filme A Filha Perdida, dirigido pela estadunidense Maggie Gyllenhaal. O longa narra a história de Leda (Olivia Colman), professora que escolhe uma ilha na Grécia para tirar suas férias. O que parece ser o sonho perfeito, logo passa a se tornar um verdadeiro pesadelo. Isso porque ela se depara com a jovem Nina (Dakota Johnson), com quem cria um fascínio, passando a observar sua rotina. Porém, Nina está acompanhada de sua pequena filha e a família do marido — bem suspeita e “espaçosa”.

Divorciada, Leda é mãe de duas filhas adultas. Ao “stalkear” a interação de Nina com a pequena filha, as memórias de Leda (de momentos cruciais com sua prole) a revisitam, causando uma forte desestabilização emocional. As lembranças surgem como uma peça neste cabuloso quebra-cabeça que vai ganhando uma montagem impressionante. Somos convidados a conhecer a Leda mais jovem (Jessie Buckley), anos antes em flashback, cuja vida vai ficando mais difícil com o nascimento das meninas, o marido ausente e a conciliação com estudos.

Mesmo tendo seguido a vida, Leda atual se vê diante de uma necessidade de redenção. A forma que faz isso é um tanto atrapalhada, porém, durante essa catarse sobre o passado, busca reconectar-se com a antiga Leda e perdoá-la de alguma forma.

A Filha Perdida é um filme sobre evidências. Apesar de equívocos do passado, a protagonista se mostra uma mãe devota, mesmo que imperfeita (como esperado da natureza humana). Não é por menos que temos dois pontos simbólicos nas diferentes épocas: a primeira é o arremesso da boneca — objeto central do filme — por uma janela e a segunda é o ventre rompido nos minutos finais do filme, quando ela é atingida por Nina.

O renascimento metafórico é apenas um dos ricos detalhes que a diretora retrata com maestria. Toda ameaça que Leda passa a sofrer física e psicologicamente cria uma atmosfera claustrofóbica.

As compensações que Leda antiga buscou foi o abandono da família e o relacionamento extraconjugal. As compensações da Leda atual estão nas memórias que contribuem para vencer a culpa que a persegue mesmo em suas férias no paraíso.

Um filme: Como Nossos Pais (Laís Bodanzky)

A diretora brasileira Laís Bodanzky traz uma visão universal de uma mulher e seus desafios como filha, mãe e esposa — não necessariamente nessa ordem. Estrelado por Maria Ribeiro como Rosa, o filme parte da ruptura no cotidiano dessa jovem que, em um momento de conflito com sua mãe Clarisse (Clarisse Abujamra), descobre que seu pai não é aquele que ela conheceia até o momento.

A revelação provoca uma crise de identidade, existencialista e expõe vulnerabilidades emocionais em Rosa. A mulher vive um momento em que luta para equilibrar a criação das filhas (entrando na adolescência), o trabalho, a relação tumultuada com a mãe e a responsabilidade com o pai (aparentemente sem se importar com a realidade da própria vida). Isso tudo na ausência do marido (Paulo Vilhena), que trabalha viajando em causas ambientais e pode estar mantendo um caso extraconjugal.

O filme reflete com maestria o peso da maternidade diante os olhares impetuosos dos familiares ao redor. É a mãe que julga a conduta de Rosa, o marido que não respeita as reclamações por parte de Rosa sobre a sua dupla (ou seria tripla?) jornada como esposa e mãe, o pai biológico que não a assume por questões “maiores” (ele é político e está em campanha eleitoral) e a própria crise emocional sobre sua existência tão desvalorizada, por maior que seja o seu esforço, o que gera uma culpa.

As respostas que Rosa busca, principalmente sobre o que é ser mãe e esposa, vão surgindo conforme ela vai vivendo a vida e ouvindo vozes ao redor. Seja na enteada do pai que oferece uma visão de “amor livre” ou no amigo casado com o qual ela acaba se envolvendo. As experiências moldam os sentimentos de Rosa e os (re)colocam nos eixos; gradualmente, ela abraça o equilíbrio.

Bodanzky retrata com esplendor o distanciamento do casal — em enquadramentos que metaforicamente trazem as divisões dentro de casa — , a ausência paterna e a fragilidade masculina, além dos fardos e prazeres das diversas identidades que as mulheres precisam assumir todos os dias, como mãe, filha, trabalhadora, sonhadora, amante e esposa. A personagem de Clarisse, mãe de Rosa, é igualmente rica, tem questões mal resolvidas e uma leve culpa sobre escolhas do passado — agora colocadas em questão por conta do câncer recém descoberto.

No fundo, o que importa é o equilíbrio nessa exaustiva vida. E se permitir, é claro. Se permitir ser imperfeita, desejar, questionar. Viver.

As compensações de Rosa não existiam, ela não ponderava sobre isso, não tinha prazeres ou escolhas. Ao perder o chão com a revelação, flertou com novos olhares, novas pessoas e buscou o amor pela família e pela própria vida.

Um filme: Mães Paralelas (Pedro Almodóvar)

Partindo do gatilho “e se…”, o diretor espanhol Pedro Almodóvar traz essa história com ares novelescos sobre troca de bebês em uma maternidade e faz analogia com uma história sobre antepassado político e enterrado.

A protagonista é a independente Janis (Penélope Cruz), fotógrafa que engravida de um arqueólogo que buscava, a pedido dela, autorização de entidades para desenterrar os restos de seu bisavô. Seu antepassado fora morto e enterrado de forma criminosa por inimigos em um um golpe militar na Espanha dos anos 30.

O pai da criança, casado, se afasta de Janis e ela passa a gerir o filho sozinha. Sua vida se intercala com a da jovem Ana (Milena Smit), com a qual acaba dividindo o mesmo quarto de enfermaria que antes do parto. Ana é fruto de uma família desestruturada e de uma mãe que escolhe a carreira no lugar de auxiliar neste momento da filha.

Almódovar, mais uma vez, entrega protagonistas fortes, independentes e sexualmente livres. O que mais chama atenção aqui é a maternidade e a cumplicidade entre as mães e a ausência masculina. A trama da troca de filhos pode muito bem prender a atenção mas serve muito mais para levar a um clímax fazendo oposição com a outra trama apresentada.

As evidências do conflito que vão sendo desenterradas levam apenas a uma certeza: não adianta inventar novas histórias, pois o que aconteceu, aconteceu e a verdade deve prevalecer. O golpe militar obrigou muitas viúvas a viverem sozinhas, sobrevivendo em um momento de incertezas com seus filhos. Esse olhar para o passado é fundamental para entender o presente e proteger o futuro.

Essa força necessária é sentida ainda, mesmo após as conquistas femininas e os novos comportamentos dentro da sociedade. Todavia, quando o assunto são filhos, a balança nunca se equilibra. A maternidade, querendo ou não, é uma jornada solitária e que requer força.

Essa bela obra sobre os desafios de mães solo, o poder das evidências científicas e os testes de moralidade humana, tem grandes momentos sobre o poder feminino através dos anos.

A compensação de Janis por muito tempo foi viver na mentira, protegendo o amor que sentia pela maternidade, pelo filho. No entanto, ela abre mão desse amor para devolver a outra mãe essa experiência única.

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Nas obras apresentadas, as mães são multifacetadas, mas que em comum carregam as mesmas dores e sentimentos de muitas outras da vida real. Desde culpa, anseios, amor, até a dualidade em ser livre ou ser mãe (como se não houvesse uma forma de conciliar os dois).

No final, as compensações não devem tomar conta do equilíbrio e dos sentimentos verdadeiros. Num mundo ainda democrático e livre, é importante jamais negligenciar o que o coração sente.

Até a próxima!

Ivan Monteiro

Jornalista aspirante a mad men escreve quinzenalmente na coluna Coffee break sobre livros, cinema, música e cafeína.

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