A glam culture e o discurso da melhor versão de si

Como a Gen Z vem sobrevivendo ao desafio da pressão estética
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TikTok

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Imagem: Reprodução/ série Euphoria, HBO

Um fato relatado recentemente pela revista britânica Dazed acendeu uma discussão importante sobre o mundo da beleza e a geração Z. Há pouco tempo atrás, uma jovem de 17 anos de Birmingham, Alabama, virou notícia ao contratar uma maquiadora para o seu primeiro dia de aula.

Anya, que iniciava o seu último ano do tradicional high school americano, acordou de madrugada e às 6 horas da manhã já estava no salão para se maquiar. Sua maquiadora, como quase toda profissional de beleza super conectada, postou no Tik Tok o antes de depois, uma figura de linguagem clássica para explicar o que chamamos aqui de glam culture.

@valenci.aga

They extra just like me 😮‍💨🫶🏾 #33333 #viral #fyp #mua #makeup #mls

♬ ALL MINE – Brent Faiyaz

Glam culture é a famosa trend que explica todos os processos estéticos de pele, look, cabelo e make que uma pessoa faz para atingir a sua melhor versão de si (e/ou se tornar uma outra versão). As redes sociais, sobretudo o Instagram e o Tik Tok, tem popularizado essa tendência com muita força, como por exemplo os sucessos dos vídeos de “get ready with me”, o famoso #grwm. O fato é que encontramos facilmente nos últimos anos uma série de influenciadores que cresceram baseando seus conteúdos exclusivamente na ideia de um “arrume-se comigo” que tem como característica básica a ideia do “antes sendo a pessoa comum, de casa, até com um resquício de quarentena e isolamento social, com roupas confortáveis e simples”. 

Esse processo passa por apresentar as roupas como se fossem ferramentas e verdadeiras agentes de transformação que levará à uma composição final, essa sim, marcada por uma representatividade de um ser humano superior, que se alinha claramente com as expectativas desenvolvidas nas redes sociais, de um ser desejável, interessante e superior. Sendo assim, o processo que configura a Glam culture é transitório, ele faz uma ruptura com a figura comum para se tornar uma versão superior, quase heróica e sobrenatural.

Mas de onde vem a Glam Culture?

Para falar da origem de forma simples, temos que pensar na construção feita através do tempo por duas camadas importantes, sendo elas:

  • Glam rock: a cultura glam setentista projetou ícones fashion, com cores fortes, brilho e muita ferramenta para identificação e expressão. Esse movimento tinha grandes figuras como David Bowie, Mick Jagger, Elton John. Já aqui no Brasil, a cultura glam setentista foi bem representada por Rita Lee e Nei Matogrosso, por exemplo.
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Imagem: reprodução
  • Glam rooms: se tem uma coisa que o reality show “Keeping Up with the Kardashians” ensinou é que todo dia merece um ritual diário de passagem, que torna a sua versão da noite, do quarto e da intimidade em outra variação muito melhorada de si. As irmãs Kardashian/Jenner diariamente passam por seus rituais de “glam” em suas glams rooms, ou seja, elas possuem equipes inteiras que as ajudam a se prepararem para um novo dia – seja ele sem nenhum evento importante ou até mesmo para um red carpet -, uma alusão clara à projeção de uma imagem de super mulher e de um empoderamento via consumo. Kim por exemplo, tem 13 funcionários no seu staff somente para cuidar de sua beleza.
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Foto: Khloé Kardashian Youtube Channel

Na segunda temporada da série Euphoria – um clássico da Gen Z -, Cassie, uma personagem adolescente que segue todos os padrões de menina popular hipersexualizada, aparece fazendo o seu ritual glam. Ela acorda as quatro da manhã para iniciar a maratona que a transformará em uma super versão, tudo para impressionar um garoto da escola.

Alguns efeitos colaterais

é claro que ao chegar até aqui você já deve ter imaginado ou até mesmo julgado diversas dessas ações como devaneios digitais e até mesmo exagero. Mas o fato é que não é, os efeitos colaterais da busca por padrões de beleza, motivo que origina a glam culture, já são bem conhecidos e explorados em todo o mundo.

De acordo com uma pesquisa publicada no Wall Street Journal, o Instagram piorou os problemas de imagem entre uma a cada três meninas no mundo. Em outro estudo com adolescentes do UK e USA, mais de 40% dos usuários do Instagram afirmaram que começaram a se sentir “pouco atraentes” depois de usar o aplicativo com certa frequência. Uma terceira pesquisa publicada pela British Mental Health Foundation, descobriu que 40% dos adolescentes disseram que as mídias sociais os levaram a se preocupar com a imagem corporal.

Os números continuam impressionando, segundo o Departamento de Saúde do UK, estima-se que cerca de 41.000 procedimentos de botox foram realizados em menores de 18 anos em 2020. Enquanto isso, as taxas de transtornos alimentares estão aumentando e metade dos homens e mulheres experimentam dismorfia corporal ou a famosa e auto-explicativa, dismorfia de Snapchat.

O fato é que essa tendência da cultura digital está presente nos nossos dias. Seja nas transições de segundos do Tik Tok que mostra uma super transformação, entre os inúmeros “get ready with me” aleatórias na timeline de qualquer algoritmo de Instagram ou até mesmo em relatos de séries, filmes e na cultura midiática como um todo, a glam culture parece ser exatamente fruto do nosso tempo pois nos faz pensar que talvez esse seria um modo pelo qual a Gen Z responde à toda essa avalanche de pressão estética, o plot twist pode ser que, ao responder, corrobora com o mesmo tipo de narrativa.

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