Coffee Break #8: sustentabilidade fora do clichê

Documentários, em especial, guardam boas histórias que geram reflexões contundentes e necessárias. A conexão com a natureza vai muito além do choque intencional. É possível sensibilizar-se e mudar os hábitos após conhecer histórias, principalmente quando elas são reais.
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Conteúdos que tocam na questão sustentabilidade além do óbvio


O ano é 2022.

O dia: 4 de outubro.

Um objeto de 33 metros e pesando 22 toneladas caiu na Terra. O material? Trata-se de parte do propulsor espacial que alçou o foguete chinês Longa Marcha 5B Y4 para o espaço. O lançamento teve como objetivo transportar o módulo Mengtian e faz parte do projeto de construção da estação espacial Tiangong, que deverá funcionar por aproximadamente 15 anos.

O propulsor perdeu o controle, obrigou a Espanha a fechar seu espaço aéreo e, por muito pouco, não se tornou uma tragédia. Mas a tendência é que situações do tipo se intensifiquem e coloquem luz também no impacto ambiental que tal ação causa.

No entanto, o que mais chama atenção é que no espaço, o chamado Lixo Espacial, é mais um caso de consequência da ação humana — mesmo quando sabemos a importância da exploração espacial para nossa civilização.

O assunto sustentabilidade está em alta, mas ainda pouco é feito, preso em clichês e paradigmas. Assim, realizar algo que tenha impacto positivo no meio ambiente tornou-se responsabilidade de cada um de nós, seja pessoa física ou jurídica. Mas estamos todos na mesma página?

Documentários, em especial, guardam boas histórias que geram reflexões contundentes e necessárias. A conexão com a natureza vai muito além do choque intencional. É possível sensibilizar-se e mudar os hábitos após conhecer histórias, principalmente quando elas são reais.

Professor Polvo (Pippa Ehrlich e James Reed)

E se? Uma boa história geralmente começa com essa pergunta. Seguindo essa lógica, o documentário Professor Polvo envolve o espectador ao trazer o cineasta sul-africano Craig Foster mostrando e narrando sua incrível experiência com um Polvo, a quem ele não apenas conheceu, mas como desenvolveu uma improvável amizade.

“É difícil explicar, mas, às vezes, você tem um pressentimento e sabe que há algo nessa criatura que é meio incomum. Há algo a aprender aqui. Há algo especial” — Craig Foster

Prevendo que algo incrível estivesse a ponto de começar, Craig passou a ir todos os dias ao encontro do Polvo. O nome “professor” no documentário vai muito além do que apenas ensinar algo. O significado da palavra pode muito expandir a mensagem dos registros.

professor

substantivo masculino

1. aquele que professa uma crença, uma religião.

2. aquele que ensina, ministra aulas (em escola, colégio, universidade, curso ou particularmente); mestre.

“p. de matemática”

A conexão com a natureza que Craig tanto busca poderia muito bem ser resumida com mergulhos eventuais e com contato de observador no mundo selvagem. Todavia, foi exatamente essa situação que ele desejava evitar, pois a culpava por ser a responsável por essa desconexão — seus registros o levaram à glória na profissão como foto documentarista, mas criava esse distanciamento, evidenciado pela visualização do meio ambiente somente pela lente da câmera e com objetivo meramente profissional.

O olhar de caçador, defendido por ele para buscar essa conexão, precisava de uma vivência mais efetiva e entregue ao natural. O Polvo que ele encontra assume uma visão da vida no seu estado mais bruto e cheia de nuances — selvagem, bela, feia, sentimental, trágica e inspiradora.

Experiências ao natural têm um poder grandioso, inclusive ligado a casos de diminuir o impacto causado pela solidão nas grandes cidades. Não é à toa que o isolamento impulsionou tendências como o Urban Jungle.

Um dos pontos altos do documentário é quando o Polvo está interagindo com um pequeno cardume, mas sem parecer querer atacá-los. Foster interpreta que o animal parece “brincar” com os outros seres, denotando uma característica muito comum a nós, incrivelmente sensível e raramente esperado em um ambiente tão selvagem.

Professor Polvo é uma obra surpreendente que traz uma história de amizade, mas cheia de ensinamentos e reflexões sobre como o ser humano, ao se inserir em um bioma diferente ao seu, encontra seres tão inteligentes e sensíveis como ele. Criaturas vivendo seus ciclos, seus temores, suas diversões e vulnerabilidade. É inteligente, criativo, aprende e ensina, se disfarça quando necessário e caça quando tem fome. O sacrifício pela vida dos filhos. Uma aula em vários sentidos. Disponível na Netflix.

Lixo Extraordinário (Lucy Walker)

O Brasil contabilizou 27,7 milhões de toneladas de resíduos recicláveis, somente no ano de 2021, conforme o Panorama dos Resíduos Sólidos 2021, divulgado pela Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais).

Porém, segundo a associação, apenas 4% dos resíduos sólidos que poderiam ser reciclados são enviados para esse processo — isso é MUITO GRAVE! O índice está muito abaixo de países de mesma faixa de renda e grau de desenvolvimento econômico, como Chile, Argentina, África do Sul e Turquia, que apresentam média de 16% de reciclagem, segundo dados da International Solid Waste Association (ISWA).

Para efeito de comparação, na Alemanha, por exemplo, o índice de reciclagem alcança 67%. Apesar da mesma pesquisa da Abrelpe sinaliza que iniciativas de coleta seletiva foram registradas em mais de 74% dos municípios brasileiros, quase 1.500 municípios ainda não contam com nenhuma iniciativa de coleta seletiva.

Mas isso é apenas parte do problema, os impactos causados pela indústria global estão fora de controle a trazem uma perspectiva nebulosa. Para ilustrar a gravidade da questão, apenas a indústria da moda é responsável por 8% da emissão de gás carbônico na atmosfera, ficando atrás apenas do setor petrolífero. O poliéster, uma das fibras mais utilizadas no mercado fashion, é responsável pela emissão anual de 32 das 57 milhões de toneladas globais. Poucos sabem, mas são necessários mais de 200 anos para que essa fibra se decomponha. Atualmente, o mercado utiliza apenas 14% de fibras recicladas, que possuem uma pegada de carbono significativamente menor do que as convencionais.

Conhecer esses números tão alarmantes deixa o documentário anglo-brasileiro Lixo Extraordinário, dirigido por Lucy Walker e lançado em 2010, ainda mais perturbador.

O documentário retrata a jornada do artista plástico brasileiro Vik Muniz em um ousado projeto pessoal que mistura colocar catadores de materiais recicláveis para o protagonismo de suas histórias e refletir sobre o descaso da sociedade, da indústria e do poder público em relação à reciclagem e à desigualdade social.

Se passando em um dos maiores aterros do mundo, o Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, Vik, entre 2007 e 2008, fez um trabalho em conjunto com um grupo de catadores que expuseram suas vidas e contribuíram para registros artísticos. A ideia era fomentar um trabalho que renderia monetização para os próprios executores do projeto. Porém, Vik não esperava que a ação transcendesse além dos horizontes financeiros.

O espectador é convidado a conhecer a ótica dos catadores Tião, Zumbi, Magna, Irmã, Isis, Suelen e Valter. Brasileiros que ganham entre 20 e 40 reais por dia retirando do lixo os materiais reciclados. Ao redor do aterro, existe de forma precária uma verdadeira cidade de sobreviventes desse “mercado”.

É impossível não se chocar tanto com as histórias narradas — literalmente entramos em suas casas e conhecemos suas vidas cheias de tragédias ou banalidades — quanto com o modo como a questão do lixo ainda é tratada atrasadamente e marginal.

Vik, que antes tem uma imagem bem distorcida do que seria aquele ambiente, vivencia uma realidade humana e carente. A experiência transborda ao espectador que, finalmente, consegue enxergar que o seu lixo gerado é a única fonte de renda de muitas famílias.

“Se você está dizendo que gostou mais quando você entendeu o que era, então talvez nós apenas não gostemos do que não entendemos.” — Vik Muniz

Disponível na Netflix.


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Até a próxima!

Ivan Monteiro

Jornalista aspirante a mad men escreve quinzenalmente na coluna Coffee break sobre livros, cinema, música e cafeína.

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