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Em algum momento de sua carreira, todo psicólogo deve escrever uma versão da sentença “O ser humano é o único animal que……” . A compreensão do que completa esta sentença possui uma volatilidade que acompanha não somente a compreensão do que é o ser humano, mas de como ele foi capaz de emular suas funções e, dispositivos antes criados à sua imagem e semelhança.

A fluidez da definição acima ganha ares futuristas quando o histórico (1883) conceito do Übermensch de Nietzsche – o super-homem, indivíduos que buscam o crescimento pessoal e refinamento cultural a todo custo – passa a ser retratado através da fusão entre o homem e a tecnologia.

O termo transhumanismo foi cunhado por Julian Huxley em seu livro Religion without Revelation, de 1927, para definir a possibilidade da espécie humana transcender o seu próprio ser, alcançando novas capacidades, o que, na década de 90, foi traduzida por Max Moore como um pensamento filosófico (e, só depois, prático) que busca reconhecer e antecipar as mudanças radicais na natureza e a incorporação da ciência na vida humana de forma a torná-la mais eficiente, influenciando, assim, a própria evolução.

Neste campo, também chamado por alguns autores de pós-humanismo, entram os estudos ligados a neurociências, neurofarmacologia, extensão da vida, nanotecnologia, entre outros, em abordagens que vão das modificações externas (mecânicas), através de próteses de alta tecnologia, passando por otimizações de órgãos, chegando à manipulação molecular e de DNA.

Dá pra imaginar a quantidade de implicações éticas, jurídicas e até mesmo religiosas desta tendência. Se por um lado alguns estudam como a máquina pode ser humanizada (ou, até mesmo, “emocional”), por outro vemos também o homem se tornando máquina, o biológico e tecnológico convivendo de forma simbiótica em um mesmo corpo. Nós redefinimos e ampliamos o que significa ser humano. (infos complementares: livro The transhumanist reader, de Max More e Natasha Vita-More) e este vídeo:

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A busca pela replicação do biológico

Sem querer ir tão longe em possíveis resultados no estilo “isso é muito Black Mirror” – como, por exemplo a imortalidade do corpo e a digitalização da consciência -, uma das frentes do transhumanismo está ligada à incorporação de elementos mecânicos ao corpo, para compensação (de perdas de membros, por exemplo) ou ampliação das capacidades (como aparelhos auditivos).

Em uma visão simplista de que “tudo fora do natural (biológico) está incorreto, ou é artificial“, as próteses e aparelhos corretivos buscaram por anos mimetizar os órgãos biológicos em sua forma e função, atendendo a uma expectativa da sociedade do que seria “normal” (entre muitas aspas).

Prótese da Touch Bionics que imitam características de membros reais, como tons de pele, sardas e pelos.

Aparelho auditivo externo, coloração transparente e próxima a tons de pele para tornar-se menos perceptível

O insucesso de tais iniciativas corroboram com o conceito de Uncanny Valley. Masahiro Mori, roboticista japonês nascido em 1927 foi o pioneiro no estudo das respostas emocionais das pessoas a entidades não-humanas, cunhando o termo “Vale da Estranheza” (“Uncanny valley”) ao perceber que ocorre um desconforto quando há a tentativa de criar humanos artificiais próximos da realidade (mas que não a alcançam) – do que observado em elementos humanoides claramente artificiais. O escritor Isaac Asimov nomeou este sentimento como “Complexo de Frankstein” (“Frankenstein complex”) e, mais recentemente, aproximando-se da condição psicológica conhecida como “Automatonofobia” (medo de algo que falsamente represente um ser senciente).

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Compensando onde se poderia ampliar

O ponto aqui é questionar duas vertentes ligadas à incorporação de elementos artificiais ao corpo humano: a primeira está ligada à forma e a segunda, à função, que podem ou não estarem conectadas (geralmente estão).

Com a popularização (e aceitação) destes elementos não biológicos no corpo, é de se esperar que a sensação de estranheza pela não-naturalidade desapareça, permitindo que novos componentes sejam incorporados e estas partes deixem de estarem focadas apenas nas questões funcionais para também contemplar o belo e o visualmente agradável, independente da subjetividade destas questões (esta palestra do designer industrial Scott Summit trata desta questão).

Uma parte importante do vídeo (e deste pensamento estético) é que, conforme explicou Summins, o componente não biológico está integrado ao indivíduo, o que fez com que as pessoas ao redor reduzissem a atenção dada à ausência do membro original.

Exo-prótese feita em impressora 3D com projeto que permite melhor distribuição de peso com gasto mínimo de material de produção

A segunda questão é até um pouco mais complexa, filosoficamente falando. Se temos a capacidade de otimizar a performance de uma parte do corpo humano, por que não fazê-lo?

Sabendo que não há limitações técnicas, o que nos impediria de repensar a função de um componente humano do zero e redesenhá-lo para obter níveis de performance melhores que o design original?

Como uma mão artificial com 7 dedos tocaria piano? Juntas artificiais em membros superiores poderiam contar com componentes que aumentassem a capacidade de carga, permitindo a um humano levantar 400 kg?

O paraesporte começou a acostumar as pessoas à ideia de design atrelado à maior performance em próteses

Estas próteses do paratleta Oscar Pistorius, chamadas Flex-Foot Cheetahs, permitem ao corredor uma performance de 15% a 20% maior, conforme estudo publicado no Journal of Applied Physiology

Se a fusão entre homem e máquina produzirá humanos mais capazes? Tecnicamente nada nos impede de trilhar este caminho. E muitos pesquisadores e empresas estão, neste momento, empurrando as fronteiras entre o biológico e o tecnológico.