Em março de 2021, vai fazer um ano que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a pandemia. A partir daquele momento, o trabalho remoto virou regra em muitas empresas, exceto para atividades que não podiam ser realizadas à distância ou para situações em que a empresa não havia adotado o home office. Essa medida, tomada por questões de segurança sanitária, provocou grandes mudanças na rotina de empresas e pessoas, além de ter explicitado ainda mais as desigualdades sociais, pois muitas pessoas não tiveram condições para trabalhar de casa em função da falta de uma moradia equipada com internet, mobiliário adequado e espaço disponível, por exemplo. 

E agora, quase um ano depois? O que já aprendemos com as mudanças no mundo do trabalho? Que reflexões podem ser feitas sobre a adoção do home office? Ele veio para ficar ou vamos voltar ao modelo tradicional depois que a pandemia passar? Como serão os escritórios no pós-covid? 

Olhando pelo retrovisor, temos hoje uma boa quantidade de dados e informações para uma análise mais aprofundada sobre os prós e os contras desse formato, como mostrei neste artigo aqui no Update or Die. O Brasil, vale relembrar, tem um problema sério a resolver quando o assunto é home office: apenas 20% da força de trabalho do país está habilitada a esse modelo, segundo relatório do World Economic Forum. Isso se deve à falta de acesso à internet de qualidade, condições físicas e emocionais para fazer da casa o escritório, e deficiência no planejamento das jornadas, só para citar os principais desafios. O lado positivo é que este cenário também abre oportunidades para as empresas que tiverem condições de melhorar a infraestrutura e a adequação do trabalho remoto de seus colaboradores.

Trabalho híbrido é tendência

Também já se pode dizer, com base em pesquisas e observação empírica, que o modelo híbrido, que vinha sendo adotado em algumas empresas como “flex office” – alguns dias em casa, outros no escritório – é uma tendência que deve se consolidar no pós-covid. Segundo uma reportagem do Valor Econômico de dezembro de 2020, esse formato é o “favorito para o pós-pandemia”. Isso porque ele aproveitaria os aspectos positivos do home office (aumento da produtividade, flexibilidade e economia com transporte  e tempo) e também ajudaria a superar dificuldades. “Os profissionais que têm filhos ou moram com muitas pessoas reclamaram da dificuldade de concentração naquele ambiente. A falta de comunicação direta também foi um problema sentido por alguns funcionários. “A saída pensada pelas empresas tem sido a adoção de um modelo de trabalho híbrido”, afirma a reportagem. Só para dar uma ideia, um levantamento com líderes de organizações feito pela startup Open Mind, citado na matéria, mostra que 85% dos entrevistados pretendem implantar esse sistema ao longo de 2021. 

Como, ao que tudo indica, o trabalho remoto, com variações aqui e acolá, deve permanecer entre nós, algumas reflexões são necessárias – a questão da interação entre as pessoas e a preservação da cultura criativa, por exemplo. Afinal, num papo de cafezinho pode surgir aquela faísca inspiradora para a próxima campanha ou projeto. O contato informal, as constantes trocas de ideias, o happy hour, tudo isso sempre foi um combustível para o trabalho criativo. Como garantir tudo isso só com contato pelas janelinhas do Zoom? 

Descentralização e ressignificação dos escritórios 

Aos poucos, as empresas também foram experimentando novas formas de estimular essa interação durante o isolamento social, como happy hours online e conversas diárias. Ainda assim, a tecnologia não é capaz de replicar plenamente as necessidades de socialização com os colegas ou substituir as atividades presenciais, como a recepção a novos funcionários.  O desafio para o pós-covid é buscar um equilíbrio entre o trabalho no escritório e a possibilidade de trabalhar em qualquer lugar. 

É nesse contexto que o redesenho dos escritórios entrou no radar das empresas, assim como a discussão sobre a adoção de modelos flexíveis de jornada de trabalho. Pensando no avanço do modelo híbrido, o escritório tende a ter novas funções e configurações. Ainda é cedo para previsões, mas acredita-se que haverá maior espaçamento entre as estações de trabalho, mesas flexíveis e rodízios para utilização dos espaços, até mesmo com agendamento de horário. As empresas sabem quanto custa um posto de trabalho corporativo, e por isso, após o experimento do homeworking na pandemia, muitas delas vão optar por diminuir sua capacidade, desde que possam gerenciar onde seus profissionais estão, em casa ou na empresa, e garantir que o posto deles esteja disponível, diz Nagib Nassif Filho, co-fundador da Where, uma das startups que nasceram em 2020 olhando para esta oportunidade.

Espaços colaborativos

As metodologias ágeis, que não eram tão utilizadas fora do universo das empresas digitais, devem ganhar força e influenciar o layout de espaços colaborativos, segundo Ivo Wohnrath, CEO do Athié Wohnrath, uma das principais companhias de arquitetura do País. “Outro fator que se imagina que vá ganhar força é que os ambientes de convívio devem ser ampliados e referenciados a partir das experiências positivas trazidas pelo home office”, diz o executivo nesta entrevista. “Os escritórios deverão se ajustar a esse contexto, com mais sofás e salas de reunião abertas, menos frias”.  

Foco nas pessoas

Como se vê, já se tem um bom apanhado de experiências e reflexões possíveis em razão desses 11 meses de pandemia – período que, com a aceleração de futuros gerada pela covid-19, pode muito bem representar anos. Mas a jornada é longa. Ainda teremos de conviver com a pandemia por muito tempo, e a vacinação em massa vai demorar. 

O importante em todo esse processo é refletir sempre e ter o foco nas pessoas. As empresas precisam pensar suas estratégias e ações colocando o ser humano no centro, do planejamento adequado para evitar excessos no home office aos cuidados com a saúde mental e a equidade social dos funcionários. 

Karina Rehavia

Fundadora & CEO da Ollo