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Uma vida de estudos baseada na lógica de testes e deveres de casa, em que o objetivo é ficar acima da média para ser aprovado, gera uma mentalidade de trabalho medíocre em grande parte dos estudantes. Assim começa uma sequência de tweets do pesquisador Cesar Hidalgo, Diretor do Center for Collective Learning, Artificial and Natural Intelligence Institute (ANITI), da University of Toulouse.

Após orientar, por mais de uma década, alunos de mestrado e PhD, ele chegou a uma conclusão: a mudança do sistema de notas, que vai até a graduação, para uma lógica mais sofisticada de avaliação, nos estágios acadêmicos seguintes, causa um bug na cabeça dos alunos – e obviamente não é culpa deles. Agora, nesse nível, o trabalho é entregue e o retorno não é mais um 8,5 ou B+, mas algo como: faz de novo, dá pra melhorar, refina, exercita, aprofunda mais aqui, explora ali, tira isso da frente, muda o ângulo.

O mesmo fenômeno pode ser identificado também no ambiente das agências e empresas que trabalham com atividades criativas. No lugar das notas, temos o feedback binário APROVADO ou REPROVADO. E assim, como acontece na escola, é ignorado todo o intervalo que há entre os dois estágios, e até além deles. Parece que o que está aprovado é bom e está pronto e o que é reprovado não serve. O profissional (que também não tem culpa) perde a chance de ir além, de desenvolver o trabalho – e se desenvolver – quando a criatividade passa por média.

O artesanato da ideia

A agência também tem prejuízos. Um dos impactos é a falta de cuidado com o artesanato da ideia. O craft, geralmente, fica concentrado depois da aprovação da ideia, na fase de execução do projeto. Aí sim o refino, o cuidado com os detalhes, a régua de qualidade, tudo é mais alto. Porém, seria também muito importante dedicar mais atenção ao craft da ideia em si. Reservar algumas rodadas de iterações, idas e vindas, feedbacks construtivos, experimentação e erros durante a fase de concepção do projeto. Ou seja: ir além do aprovado/reprovado.

Claro que nem sempre há tempo. Para encontrar o equilíbrio, uma solução é analisar, decidir conscientemente e acordar entre todas as partes sobre a energia que será empregada na concepção de cada trabalho. Ideias grandes e inovadoras precisam de uma jornada de criação mais longa. Wilbur Wright, um dos irmãos envolvidos na invenção do avião (já que queremos subir o sarrafo), explica seu processo criativo como algo que foi construído por uma vida compartilhando o quarto, os brinquedos, o trabalho, as aspirações e dúvidas com o irmão: “quase tudo o que fizemos em nossas vidas foi resultado de conversas, sugestões e discussões entre nós.” Possivelmente não teremos uma vida para dedicar a um único job, mas é preciso ter claro que mais energia criativa faz diferença no resultado final.

Outro artifício possível é usar o processo em si para qualificar a entrega. Na prática, o fluxo pode ser desenhado para que sejam testadas hipóteses, feitos esboços, com momentos divergentes e convergentes durante a fase de criação. O design tem muitas ferramentas para isso, como o protótipo (no meio, e não no fim) ou os cenários. William Gaver, em artigo intitulado What Should We Expect From Research Through Design? sugere que: “Most of us appreciate the value of craft and detail in our work. Most fundamentally, most of us agree that the practice of making is a route to discovery…”. O ato de fazer é um caminho para a descoberta.

Seja na vida acadêmica, nas agências ou nas empresas de mentalidade criativa, é preciso construir processos que vão além das notas ou do aprovado/reprovado. Se conseguirmos fortalecer culturas que abram espaço para o feedback mais qualitativo e contínuo e menos binário ou definitivo, fica mais fácil encontrar o ponto de equilíbrio para subir a qualidade do trabalho criativo e das relações que o envolvem.

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