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Por que expandir histórias

Na economia da atenção vence quem presentear sua comunidade com conteúdo na hora e no formato que ela quiser consumir – e estar pronto pra fazer esse ciclo todo de novo.

Desde de que começamos a trabalhar com criadores e marcas para contar suas próprias histórias, e ganhar dinheiro com essas propriedades intelectuais de entretenimento, descobrimos uma coisa interessante: o sucesso não é baseado no formato, mas sim nas conexões.

Existe um livro, chamado “A Armadilha do Conteúdo”, do professor de Harvard Bharat Anand, que, entre diversos exemplos, prova que a qualidade do conteúdo não garante seu sucesso de audiência. Isso não quer dizer que o “production value” ou “craft” não façam diferença no impacto, mas a relação entre as pessoas dentro de uma comunidade que consome esse conteúdo faz mais. Como esse grupo compartilha, como vê esse conteúdo e como pode ser um “presente” é que faz a diferença. Literalmente entender e atender, aos hábitos dessas pessoas, é que move a agulha da “fanbase”. Por isso, na visão de Anand, a escolha do formato, ou da plataforma de distribuição, é algo que só pode ser decidido depois de entender esse comportamento.

Até aqui tudo parece óbvio, mas para a maioria dos produtores de conteúdo, donos de canais ou especialistas em algum formato específico é contra-intuitivo. Quando o criador, que já domina um estilo (que está ou esteve ligado a um grupo de seguidores fiés), não consegue se adaptar, evoluir ou expandir, pode perder a conexão com esse público e, com isso, perder suas oportunidades de negócios. Isso acontece desde que o mundo é mundo, aconteceu com o teatro, com as revistas, com o rádio e até com os livros – claro que nenhum, ou quase nenhum formato que já foi um sucesso se extinguiu –, mas alguns conteúdos que existiam nessas plataformas perderam a relevância até eventualmente sumir.

Um sinal disso, alguns especialistas em redes sociais apontam, está acontecendo com influenciadores hoje em dia. Sabendo que vão perder na luta contra o algoritmo, já começaram a transportar seu conteúdo para outros lugares, mas sempre respeitando os hábitos da sua base. Essa expansão, que depende de tempos e movimentos das relações humanas, se trata de expandir a sua “história” – mesmo que não se trate de uma narrativa.

Quando falamos de histórias, falamos de humanos e suas conexões e falamos de evolução. Nesse território sempre vale citar o autor de “Sapiens”, Yuval Harari. Ele argumenta que a cooperação em grande escala é uma das muitas especialidades humanas e isso se dá através do poder de convencer e de acreditar em coisas que não existem na natureza, como mitos, nações, leis e dinheiro – tudo produto da imaginação humana, e que tal como os criadores, usam de histórias para fazer essa crença funcionar.

Isso porque em um mundo onde há abundância de formatos e escassez de modelos de negócios, os produtores de conteúdo – criadores solitários ou grande conglomerados – buscam por telespectadores cativos e lutam contra a dispersão de telas. A única coisa que pode gerar lealdade é a conexão, ou a crença, nessa história, seja formal com três atos e começo-meio-fim, seja ela apenas o contexto no qual o influenciador está inserido. Se, marca ou criador, que já entenderam o hábito de um grupo, conseguirem criar esse “mito”, aí sim eles começam a pensar em planejar formato e distribuição.

Por isso, trabalhar com Propriedade Intelectual de Entretenimento dá essa flexibilidade. Seja quem for o criador, seja qual for o formato original da história ou quais forem os ambientes, audiências e planejamentos, quem detiver os direitos autorais e sua exploração patrimonial pode escolher (sem perder o universo lúdico da história) o que fazer com ela, para onde ir e como expandir. Essa é a verdadeira origem de dessa discussão. Um autor deveria, depois de criar uma história, pensar no seu público, ou testar o seu público, para que somente depois decidisse em qual formato ela vai existir, e expandir, no mundo.

Expandir uma história se trata de entender o ser humano e seus hábitos de compartilhamento, se trata de encontrar o DNA dessa relação e, em cima disso, desenvolver um universo em formatos que possam ser consumidos, criando novas conexões. O que interessa no fim é expandir uma história para distribuir seus conteúdos de forma viável e lucrativa para uma audiência ou comunidade no formato, no momento e do jeito que ela quiser.

Bruno D'Angelo

Bruno D'Angelo é fundador da WIP, uma aceleradora de estórias e negócio. Bruno é contador de histórias nato. Começou como quadrinista e acabou vivendo uma jornada no mundo corporativo, de veículos a agências, combinando seu passado narrativo com uma visão única do ecossistema de consumo de conteúdo nos dias de hoje. Também pesquisa e dá consultoria sobre storytelling quando não está trabalhando para melhorar o mundo para suas filhas.

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