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Sempre que falo sobre storytelling, gosto de deixar claro que é impossível se tornar um contador de histórias supremo. A própria natureza do storytelling não permite isso. Afinal, junto de toda a técnica e lógica e memória genética por trás do ofício de se criar uma narrativa, também temos um outro fator muito importante: o meio escolhido para transmiti-la.

Você pode virar um mestre no storytelling literário porque entende como a mídia livro funciona. O mesmo ocorre com Quadrinhos, oratória, seriados de TV e até mesmo posts, anúncios de revistas ou tweets.

Ao conhecer técnicas narrativas e dominar o meio que você escolheu, você se transforma em um grande artista, mas nunca será o artista que manja de tudo. Simplesmente não rola conhecer tudo, por mais que você se esforce.

Sendo assim, foi com uma enorme alegria que, ao terminar de assistir La La Land, concluí que ali estava uma história que só poderia ser contada no cinema… e como um musical (detalhe: eu detesto musicais – ou detestava).

Não há espaço para livro, série ou o que quer que seja. La La Land é Cinema puro.

Em uma época em que ouvimos constantemente que a 7ª arte não é mais a mesma coisa, que os grandes filmes só são atrativos por causa de seus efeitos e que vale muito mais a pena ficar em casa e assistir a um seriado no Netflix do que gastar grana indo ao cinema, ver um filme como La La Land é mais do que diversão. É testemunhar o retorno da magia.

Com um plano-sequência de abertura de tirar o fôlego, o jovem diretor Damien Chazelle já nos mostra a que veio. Mesmo que você não goste de musicais, ainda assim será capaz de admirar a complexidade e beleza da cena. E depois daquilo o filme só melhora.

A trama é aquela que você já conhece: “garoto encontra garota”. Só que é na maneira como a história é contada que está a graça.

Nossos dois personagens centrais são jovens sonhadores comprometidos em alcançar seus sonhos na mítica Los Angeles, a cidade das estrelas. Mia (Emma Stone, mais apaixonante a cada sorriso que dá em cena) é uma barista que quer ser atriz, enquanto Seb (Ryan Gosling, carismático e com um timing perfeito) é um músico obcecado por jazz que quer abrir seu próprio bar para não deixar a arte que tanto ama morrer. Claro que os dois se apaixonam e vivem altas aventuras.

Longe de mim dar spoilers por aqui, mas não posso deixar de mencionar a química quase inacreditável dos dois atores e a construção impecável que Chazelle faz conforme o tempo vai passando – aliás, a passagem de tempo é marcada pela mudança de estações, mas isso nos é quase imperceptível, já que o clima está sempre perfeito em Los Angeles. É no âmago dos personagens que vemos a real transformação.

Um dos grandes segredos das histórias de sucesso está em criar identificação entre público e personagens. E o que temos em La La Land vai além disso. Mais do que nos identificarmos, nos apaixonamos por Mia e Seb. Acompanhar suas jornadas é um verdadeiro deleite.

Conforme vamos vendo os rumos que os personagens dão para suas vidas enquanto perseguem seus sonhos, ainda somos brindados com referências e homenagens à história do Cinema. Prato cheio para os cinéfilos.

Aqui e acolá também surgem as músicas, mas elas não atrapalham a narrativa. Muito pelo contrário. São como a expressão dos sentimentos mais puros dos personagens que, não podendo mais caber no peito, transbordam em canto e dança. É bem verdade que Stone e Gosling não são cantores, mas também não comprometem. Prometo que você não vai se irritar com a cantoria, mesmo que não goste desse gênero de filme.

Mas claro que nenhuma boa história está completa sem conflito.

Sendo assim, os pequenos problemas de nossos protagonistas vão se agravando até chegarmos ao que talvez seja o grande tema do longa e uma questão que faz parte da vida de uma quantidade infindável de jovens hoje em dia: o confronto entre Sonho e Amor.

Que os sonhos de Mia e Seb ainda estejam ligados à arte deixa tudo mais difícil, já que a arte é sagrada ao artista.

Sendo assim, quando nos aproximamos do ato final, não conseguimos evitar de nos perguntar coisas como: será que eles ficarão juntos? ou como eles vão lidar com essa situação? ou ainda quem terá que abrir mão do que para que o amor prevaleça?

São perguntas honestas e válidas, e que mostram como os romances hollywoodianos estabeleceram em nós um modo de pensar. Fomos acostumados a histórias que nos levassem a esse tipo de questionamento para depois recebermos uma resposta que nos traria ou risos ou lágrimas.

Mas acontece que essas perguntas não cabem aqui. Não em um filme como La La Land.

Quando o poderoso clímax chega, em uma das sequências mais sensíveis e belas da atualidade, as perguntas deixam de fazer sentido. Elas não importam mais… e, ao invés de encerrar tudo com um choro ou um sorriso, você acaba ficando com as duas coisas.

É Chazelle obedecendo com maestria a velha dica de storytelling de que você deve concluir dando ao público aquilo que ele quer, mas nunca da maneira como ele espera.

E eu não estava esperando por aquilo.

Ao final, eu estava pensativo, empolgado, cantando por dentro, mas mudo como a madrugada. Estava feliz e de coração partido.

Minha vontade foi de levantar e aplaudir.

City of stars

You never shined so brightly…

 

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