Coffee Break #4: as surpreendentes previsões de Carl Sagan 

Desde a sua morte em 1996, o mundo ocidental se encontra ainda mais polarizado, imerso em guerras de âmbito militar, político e cultural
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Carl Sagan e as reflexões que surgem quando olhamos para o céu… ou para nós mesmos.

Astrônomo que deixou seu legado de grande impacto na vida de muitos, inclusive deste que vos escreve, Carl Sagan (1934–1996) faz falta. Sua missão de ser o porta-voz da ciência neste “mundo assombrado pelos demônios”, como diz o título de uma das suas mais célebres obras, impulsionou o interesse de leigos e cientistas em todo o mundo, dilacerando crenças vazias e negacionistas. Buscando respostas no céu e na terra. Refletindo e fazendo refletir. De certa forma, o cientista já previa estarmos caminhando para um mundo repleto de soluções e desafios.

Desde a sua morte em 1996, o mundo ocidental se encontra ainda mais polarizado, imerso em guerras de âmbito militar, político e cultural, navegando pelo emburrecimento fomentado pela desinformação (ou bebendo de fontes com formatos pobres e sem aprofundamento ), confiando em líderes negacionistas, satisfazendo-se no consumismo desenfreado em oposição à urgência de soluções mais sustentáveis e diante de uma natureza em fúria que pede socorro diariamente no horário nobre.

Sua memória, eternizada em livros, séries e filmes, reflete a curiosidade científica (e humana), reproduz de forma simples a explicação ao desconhecido e deixa sua marca impressa — humilde e sensível ao assumir que nem todas as respostas existem. Para ele, imaginar, mesmo no campo científico, é possível e muito saudável.

“Creio que somos o meio de controle, o planeta em que ninguém estava interessado, o lugar onde ninguém intervinha. Um mundo de calibração que se estraga. É isso que acontece quando eles não intervêm. A Terra é uma aula prática para os deuses aprendizes. ‘Se vocês errarem muito, fazem uma coisa como a Terra’, dizem a eles. Mas, evidentemente, seria desperdício destruir um mundo perfeitamente íntegro. Por isso eles nos dão uma olhadinha de vez em quando, só por segurança. […] Da última vez que olharam, estávamos brincando nas savanas, tentando correr mais do que os antílopes. ‘Muito bem, está tudo certo’, disseram. ‘Esses sujeitos aí não vão nos dar nenhum problema. Daqui a 10 milhões de anos, a gente olha outra vez. […] Então, um belo dia, soa um alarme. Uma mensagem da Terra. ‘O quê? Eles já têm televisão? Vamos ver o que estão fazendo.’ Estádio olímpico. Bandeiras nacionais. Ave de rapina. Adolf Hitler. Milhares de pessoas aplaudindo. ‘Chi!’, dizem. […] Eles estão preocupados conosco. Viram que estamos descendo morro abaixo.” Carl Sagan, Contato.

Mesmo quando o universo, o planeta Terra e a ciência apresentam provas de que tudo terminará em fogo e depois em gelo, ele conseguia ser positivo em suas mensagens. Apesar de crítico, Sagan evitava o campo obscurantista e conflituoso pregado por muitos que se rotulam “homens de fé”.

Um artigo: Quem foi Carl Sagan? (Dan Vergano)

Quem foi Carl Sagan?
O astrónomo Carl Sagan foi o ” cientista Americano mais famoso da década de 1980 e do início dos anos 90.” Fotografia…www.natgeo.pt

Um Filme: Contato (Robert Zemeckis)

A adaptação cinematográfica do romance Contato, de autoria de Sagan, fará 25 anos desde o seu lançamento e continua sendo imbatível em narrativa, produção e atuações. O filme traz nomes como Jodie Foster, Matthew McConaughey e James Woods representando essa instigante história que propõe reflexões oriundas de dois grandes universos — o primeiro que é o espaço sideral com sua profundidade e mistério, e o segundo que trata do íntimo, aquele espaço dentro de cada ser humano onde se unem sentimentos, desejos, certezas e incertezas.

Jodie Foster buscava mensagens alienígenas e encontrou uma de… Hitler.

No filme, a cientista Ellie (Foster, brilhante) viveu grande parte da sua carreira buscando algum sinal de vida extraterrestre no espaço. Eis que um dia ela capta uma mensagem. Criptografada, a mensagem gradualmente vai sendo desvendada e se transforma em um manual para a construção de uma… máquina. As consequências em torno da descoberta são muitas, desde políticas até religiosas, e o contato vai muito além do esperado. Ellie foi longe para conseguir respostas e depara-se com uma experiência dentro dela mesma.

Tão bom quanto o livro, Contato é uma jornada que merece ser vista e revista, pois é uma forma de conhecer ou revisitar muitos pontos que Sagan transmitia em suas obras. A sensibilidade, humanidade e ciências estão ali, condensadas em angústias, fé e otimismo.

Contato: 25 anos do lançamento e ainda encantador! 

Um livro: “O Mundo Assombrado pelos Demônios” (Carl Sagan)

Na obra, Sagan atinge seu ápice como divulgador da ciência e dos métodos que fundamentam a prática. Aqui ele discute sobre diversos assuntos como ufologia, curas pela fé, casos de abdução, os falsos profetas, a anticiência (aquela utilizada por governos autoritários para criação de armas, por exemplo) entre outros temas. Um dos destaques do livro é a compreensão sobre a mente humana e o motivo pelo qual se aceita tão facilmente explicações sem qualquer comprovação, bastando somente ter uma crença sobre algum fato.

O cientista ainda debate sobre a decadência do investimento nas áreas científicas, os erros cometidos pelos profissionais da área ao longo dos tempos e o medo do cientista, estereotipado como a figura do “cientista maluco” na cultura pop. Mesmo vinte e cinco anos após o lançamento do livro, sua mensagem parece mais atual do que nunca, funcionando quase como uma previsão distópica.

“Renunciar à ciência significa abandonar muito mais do que o ar-condicionado, o toca-disco CD, os secadores de cabelo e os carros velozes. […] não podemos simplesmente concluir que a ciência coloca poder demais nas mãos de tecnólogos moralmente fracos ou de políticos corruptos e ávidos de poder, e tomar a decisão de que precisamos livrar-nos dela. As vidas salvas pelos progressos na medicina e na agricultura são muito mais numerosas do que as perdidas em todas as guerras da história. Os progressos nos transportes, nas comunicações e na indústria do entretenimento transformaram e unificaram mundo. Em todas as pesquisas de opinião, a ciência é classificada entre as ocupações mais admiradas e digna de crédito, apesar dos receios. A espada da ciência tem dois gumes. Sua força terrível impõe a todos nós, inclusive aos políticos, mas especialmente aos cientistas, uma nova responsabilidade — mais atenção às consequências de longo prazo da tecnologia, uma perspectiva que ultrapasse as fronteiras dos países e das gerações, um incentivo para evitar os apelos fáceis do nacionalismo e do chauvinismo. Os erros estão se tornando caros demais.” O Mundo Assombrado pelos Demônios: A ciência vista como uma vela no escuro, Carl Sagan.

Um artigo: Carl Sagan — infelizmente — tinha razão (Felipe Espinosa Wang)

Carl Sagan – infelizmente – tinha razão – DW – 25/08/2022
Mais de 25 anos atrás, astrofísico americano previa um futuro distópico em que prevaleceria a desinformação e a…www.dw.com

Uma série: Cosmos

Nos anos 80, Carl Sagan estava na TV norte-americana falando sobre ciência e astronomia e logo criou um formato popular sobre o assunto. A série Cosmos, que surgiu após o lançamento do livro de sua autoria, redefiniu muitos programas de ciência vistos atualmente, além de ganhar duas temporadas protagonizadas pelo seu pupilo Neil deGrasse Tyson.

Carl Sagan na primeira versão da série Cosmos.

Se há 40 anos, era a Guerra Fria que causava um receio generalizado — prato cheio para um programa que pregava a valorização da vida e o progresso espacial — a série ganhou uma releitura em 2014 Cosmos: Uma Odisseia do Espaço-Tempo com o propósito de barrar a crescente negação por questões como o aquecimento global, por exemplo. Por meio de uma nave espacial — o conhecimento — Neil explora o universo afora em busca de respostas. Todavia, a jornada ganha um ingrediente especial: uma viagem na história de grandes nomes da ciência e suas descobertas que redefiniram a sociedade.

Neil deGrasse Tyson assumiu o posto de Sagan.

Em 2020, o seriado ganhou uma nova temporada chamada Cosmos: Mundos Possíveis. O foco foi entender a evolução do universo como se fosse um calendário. Recontar a história de forma didática foi mais uma ação necessária em tempos de desinformação, de negacionismo e, pior, de países e culturas inteiras sendo apagadas e provas sendo explodidas, como visto recentemente na Ucrânia. Além disso, somos apresentados a uma nova nave, desta vez construída com nanotecnologia. É uma viagem deliciosa.

Uma música + entrevista: SPACEXXX (Vibri) 

Duo VIBRI apresenta o single “SPACEXXX” — Capa/ Divulgaçãp

Cansados da negatividade sem fim que marca os últimos anos — guerra, crise econômica, pandemia — os irmãos Igor e Iuri Monteiro buscaram refúgio na música e agora compartilham o resultado: o projeto intitulado Vibri.

“O Vibri nasce com a vontade de trazer vibrações positivas ao mundo, misturando nostalgia com futurismo”, afirma Igor Monteiro, vocalista, criador do conceito do duo, além de compositor.

Iuri Monteiro que cuida da produção, instrumental, beats e vocal de apoio, revela que as principais referências para o projeto são bem variadas. “Desde Hippie Sabotage, Don L até Criollo”, indica.

E foi com essa vontade de alternar a realidade e misturar boas referências que surgiu a inspiração tanto do Vibri quanto do primeiro single promocional “SPACEXXX”, uma deliciosa balada com mistura de synth-pop, mpb e hip hop, como ambos definem.

“A vida na terra não faz nenhum sentido, a sua Paz é tudo o que preciso. No nosso espaço nada é proibido, roubei uma Space X para fugir contigo”. SPACEXXX, Vibri

O estilo lo-fi também é uma das referências para o som e o conceito do Vibri. “Pela simplicidade e ao mesmo a riqueza musical que o estilo traz”, salienta Igor Monteiro, adiantando que o próximo single já está a caminho e se chama “Fim de Tarde”.

“Queremos fazer músicas que trazem um sentimento de nostalgia e paz independente do estilo”, indica Igor. A julgar pelo virtuoso lançamento, conseguiram.

Até a próxima! 

Ivan Monteiro

Jornalista aspirante a mad men escreve quinzenalmente na coluna Coffee break sobre livros, cinema, música e cafeína.

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