Ao mesmo tempo em que possibilitou a democratização da produção e disseminação de conteúdo, a internet nos impôs um grande desafio: como monetizá-lo em um ambiente em que espera-se receber informação de graça. Antigamente, grandes veículos, que detinham o poder de decisão sobre quais informações seriam divulgadas, ganhavam dinheiro para manter grandes estruturas, por meio de anúncios milionários pagos por empresas. 

Uma aura de imparcialidade, limitada por linhas editorias evidentes, apesar de muitas vezes não declaradas, podia ser mantida com base em grandes redações, com número de profissionais suficiente para permitir que tivessem capacidade – tempo, estrutura e dinheiro – para apurar pautas, fazer entrevistas e trazer diferentes fontes mostrando os “dois lados” dos fatos. Eram contadores de histórias profissionais, contratados e remunerados para isso.

A migração da audiência para o digital criou confusão nas empresas de mídia tradicionais, que se perderam na transição, tanto em relação à adequação de formatos quanto a modelos de negócio. Algumas, ficaram pelo caminho, outras cambaleiam até hoje, tentando se encontrar. Internet, no nosso inconsciente, sempre foi um espaço de acesso gratuito. Por isso, por um bom tempo nem anunciantes se dispuseram a pagar pelos espaços o que valiam, nem a audiência queria pagar para acessar informação. A bolha dos anos 2000, quando os altos investimentos feitos no digital não tiveram retorno devido à falta de um modelo de negócios claro, foi uma amostra disso. 

Apesar de ter mudado um pouco e novas formas de cobrança por anúncios terem sido criadas – do leilão no Google à mídia programática -, essa cultura ainda permanece. Com o passar do tempo, os negócios digitais prosperaram, porém, a monetização de conteúdo ainda é um desafio, que, hoje, transcende os grandes veículos de mídia e chega aos pequenos produtores de conteúdo, os chamados influencers ou creators.

Democratização da voz

Além disso, a Internet diminuiu o poder de influência dos grandes veículos e o colocou nas mãos de qualquer pessoa que quisesse se manifestar e, mais uma vez, soubesse se comunicar e contar boas histórias. 

Nos primórdios dos web logs, quando acesso a internet ainda era caro e era necessário um pouco de esforço e conhecimento de programação para desenvolver páginas de posts, sem as ferramentas super intuitivas como Blogspot e WordPress, as primeiras blogueiras criaram seus diários pessoais. Iniciaram, assim, o movimento de compartilhamento de um olhar mais pessoal sobre a vida e o mundo, que evoluiu para videologs, com o aumento da velocidade de uploads e disseminação de aparelhos com melhores câmeras de vídeo, até chegar nos stories do Instagram, que hoje ocupam o lugar das novelas pra muita gente.

O desenvolvimento tecnológico, que barateou e democratizou o acesso à Internet, aproximou e uniu pessoas, fazendo com que questões e problemas que antes eram considerados individuais passassem a ser percebidos como coletivos, potencializando vozes, dando maior visibilidade para causas sociais e criando comunidades capazes de acelerar transformações, levando suas mensagens a um número maior de pessoas. Movimentos anti-racistas, feministas, decolonialistas, ambientalistas, pela valorização dos corpos, contra o etarismo, o capacitismo, entre muitos outros, ganharam força essencialmente pelo poder das conexões proporcionadas pela rede. Em contrapartida, vozes reacionárias e conservadoras se levantaram no mundo todo.

No âmbito individual, surgiram os super influencers, com a mesma aura de desejo e glamour que estrelas de cinema e celebridades sempre tiveram, mas com poder de se comunicarem diretamente com suas audiências, sem o filtro da mídia tradicional. 

Mídia e mensagem

Apesar de ser capaz de engajar audiências de milhões de pessoas, esse novo personagem midiático enfrenta um desafio semelhante ao de grandes veículos tradicionais, que se debatem para manterem-se vivos: modelos de negócio e monetização.

Com a migração do público dos blogs pessoais para as redes sociais, criadores de conteúdo, assim como empresas e veículos, tornaram-se dependentes dessas plataformas e vulneráveis a algoritmos e mudanças de estratégias das mesmas, em especial as de Zuckerberg.

A vantagem é que, mesmo xingando muito o Instagram, muita gente ainda consegue criar suas comunidades ali. Com o passar dos anos, temos visto a influência ser dividida por poucas blogueiras, que mostram um lifestyle inspiracional e inatingível, com criadores de conteúdo de qualidade sobre uma infinidade de assuntos úteis para o público, de DIY a neurociência, de receitas a finanças. 

Porém, outra dificuldade enfrentada por quem deseja monetizar seu conteúdo é a prática de venda de publicidade como espaço de mídia. Em veículos tradicionais, o custo publicitário é calculado em relação a dimensão do espaço e a audiência. No entanto, criadores de conteúdo têm duas características extras, que deveriam agregar valor: a criatividade e a confiabilidade atrelada à própria identidade.  

O conteúdo criativo e original publicado por um criador que tenha credibilidade e proximidade com seu público pode gerar muito mais resultados do que um post genérico e sem personalidade feito por alguém com milhões de seguidores que não tenham um forte sentimento de conexão com ele. No entanto, o número de seguidores ainda é o principal fator levado em consideração por grande parte das empresas ao selecionar influenciadores para campanhas. Apesar de não poder ser desprezada, a quantidade nem sempre leva ao melhor resultado, dependendo dos objetivos da campanha.

E o que o metaverso tem a ver com isso?

O fato é que, para não depender nem de plataformas sociais nem da boa vontade das marcas que pagam pelos publis, muitos criadores de conteúdo estão buscando outras formas de monetização e outros modelos de negócio. Alguns apostam na criação de infoprodutos, como e-books e cursos, ou mesmo de produtos físicos, seja com a criação de linhas licenciadas com marcas estabelecidas, seja com a criação de suas próprias marcas.

Outros, apostam na disposição de suas comunidades em retribuír o valor gerado por seus conteúdos. Only Fans, Super Chat e ferramentas de financiamento coletivo por assinaturas, como Patreon, são formas de se fazer isso. O Metaverso pode abrir novas possibilidades de monetização.

Em um dos artigos mais interessantes que li sobre o conceito de Metaverso, escrito em janeiro de 2020 por Matthew Ball, são descritos 7 pilares do conceito de universo que sobrevirá à Internet. Um deles tem a ver justamente com a criação. Segundo Ball, no Metaverso “indivíduos e empresas serão capazes de criar, possuir, investir, vender e ser recompensados ​​por uma gama incrivelmente ampla de trabalho que produz valor que é reconhecido por outros”. De uma espada virtual a um universo ficcional inteiro, de uma história em um jogo a uma obra de arte. Qualquer coisa poderá ser criada e vendida.

Meu pitaco sobre metaverso

Metaverso é um tema bastante discutido aqui em casa. Meu marido é fã de ficção científica e trabalha com tecnologia e eu sou uma curiosa diletante que adora saber o que acontece pelo mundo e especular pra onde vamos. Bem antes do Facebook tentar jogar a sujeira sobre manipulação e privacidade pra baixo do tapete e surfar a onda, mudando o nome da empresa pra Meta, comentei com ele sobre o assunto com empolgação e como achava que poderia levar isso para sua própria empresa.

Na época, a resposta que tive foi de que o que estavam falando era papo de marqueteiro e que o Metaverso, real oficial, definido nos livros cyberpunks, como Snow Crash e Neoromancer, ainda demoraria muitos anos para se concretizar, devido à necessidade de desenvolvimento tecnológico.

Na minha perspectiva, como ignorante de teorias e literatura a respeito, no entanto, um dos acontecimentos que nos coloca no caminho para a concretização do Metaverso é a falta de limites entre a vida offline e a vida online. 

Nós, que nascemos antes da Internet ser algo corriqueiro e que permeia todos os âmbitos da vida, ainda temos em mente a diferenciação entre estar conectado e estar desconectado. Tanto que vemos surgir muitos movimentos em prol da necessidade da desconexão. Acredito que os filhos dos nossos filhos viverão em uma realidade em que desconectar não será uma opção. Não existirá vida online e vida offline, haverá apenas vida, independente das atividades serem realizadas no plano físico ou no plano virtual.

Economia e negócios na era do Metaverso

Assim, as necessidades, o consumo, os eventos, os lugares e as atividades virtuais terão tanta importância nas nossas vidas quanto o que existe fisicamente. Talvez, até mais.

O ponto é que, hoje, a capacidade de produzir bens e espaços físicos está atrelada ao poder financeiro e restrita a poucas pessoas. No Metaverso, assim como aconteceu e vem acontecendo com a produção de conteúdo, qualquer pessoa será capaz de criar, produzir e monetizar. Em plataformas como Roblox, por exemplo, membros influentes da comunidade já vendem para seus fãs camisetas com estampas exclusivas, que podem ser físicas ou skins comprados para seus avatares.

Isso significa que, com a transição da vida do mundo exclusivamente físico para o possível Metaverso, a capacidade de criar poderá ser mais valorizada em relação à capacidade de produzir bens físicos. Pessoas capazes de gerar valor e engajar suas comunidades terão novas possibilidades de monetização. Outro exemplo de que esse movimento já vem acontecendo e crescendo são as controversas NFTs, que possibilitam gerar valor pela escassez para obras e produtos que só existem virtualmente.

Super influencers x criadores de nicho

Hoje, a maior parte das pessoas que se declaram influenciadoras não conseguem gerar receita suficiente para viverem apenas do conteúdo que produzem para suas comunidades. Não acredito que o futuro no Metaverso será diferente. 

Porém, acredito que cada vez mais criadores com comunidades de nicho, que criem com qualidade, criatividade e se tornem relevantes, serão valorizados e conseguiram ganhar algum dinheiro com isso. Sempre teremos os pontos fora da curva, que chegam aos sete ou oito dígitos, mas ao mesmo tempo, teremos mais pequenos e micro influenciadores, super conectados com seus públicos e com enorme poder de convencimento e de geração de negócios, tanto para outras marcas quanto para suas próprias empresas e produtos.

Próximos passos

Pode ser cedo para nos imaginarmos vivendo em um universo totalmente virtual. No entanto, é fato que quem quer se manter vivo e relevante, em uma realidade com ou sem o tão especulado Metaverso – e se preparar para ele-, precisa investir na construção e na alimentação de sua comunidade. Seja uma marca, seja um criador de conteúdo.

Para isso, é essencial criar e contar histórias que gerem valor, criem identificação e mantenham as pessoas engajadas. Desde que o mundo é mundo, muito antes da invenção da escrita, da imprensa, dos jornais e da Internet, são as histórias que conectam, ensinam e nos mantêm próximos. Até há pouco tempo, os grandes veículos detinham o controle do que chegaria ao público. Hoje, o caminho está livre para qualquer um que saiba contar boas histórias.

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