Por Helena Villar

Aconteceu ontem a primeira edição do Spotify Talks, evento promovido pelo Spotify Brasil para discutir sobre os caminhos atuais, passado e futuro da indústria musical brasileira. A mesa, mediada pelo curador Alexandre Matias, reuniu os artistas Emicida, Céu, Lucas Santtana e Mahmundi, que falaram sobre suas experiências como artistas independentes em momentos diferentes da música, sobre o que este mercado exige e quais as facilidades e dificuldades que a tecnologia trouxe para o meio musical.

Antes da discussão começar, convidados conversaram sobre a importância de discutir o que é o mainstream atual e como o meio digital fortalece a diversidade de artistas brasileiros. Para Fernando Dotta, , um dos fundadores do selo e produtora Balaclava, “O mainstream ainda é visto como a TV e o rádio, que são mídias que, quem é independente tem difícil acesso e que a imprensa olha mais porque é o que dá dinheiro e o que faz a indústria da música girar para os gigantes”. Porém, concorda que, cada vez mais, esse formato vem mudando e que há uma necessidade de reinvenção do mercado. A internet foi fundamental ao possibilitar aos artistas que eles mesmos produzissem e divulgassem seu trabalho e ainda conseguissem conectar-se facilmente com as referências musicais nacionais e internacionais. “Os produtores independentes se fortaleceram muito nos últimos anos, se especializaram. Tem cada vez mais gente fazendo as coisas na raça, com estrutura e qualidade, e que tem alavancado o mercado e profissionalizado numa forma geral”, diz Fernando, que é também guitarrista e vocalista da banda Single Parents.

Sem dúvidas a internet oferece, há tempos, novos formatos para os músicos e a conexão rápida com seus ouvintes. O início de uma celebrada carreira musical pode começar com um vídeo feito pelo próprio artista em sua casa. O gerente da plataforma de distribuição digital de música ONErpm, Arthur Fitzgibbon, diz que está acontecendo uma inversão de valores, “Quem vai decidir o que é música boa ou ruim são os ouvintes, não mais a indústria. Nós somos apenas um facilitador de alcance”. Ter a oportunidade de consumir música sem ser apenas pelo seu formato físico, como o disco ou o vinil, faz com que os consumidores tenham uma maior liberdade para conhecer novos artistas e controlar o que é de interesse massivo. A diretora de marketing do Spotify, Carol Baracat, acrescenta: “Como consumo de música, o que vemos no Spotify é uma distribuição. As pessoas descobrindo o mainstream, mas muitas coisas novas e fora dele. Uma vontade verdadeira de conhecer músicas novas. Sempre que divulgamos um artista novo, a resposta é imediata. Existe espaço, curiosidade, vontade e engajamento ao que é novo”.

talks2A grande questão que toma conta do simpático espaço do Spotify – o contraponto do mainstream – é, claramente, não existir mais um mainstream. Temos vários acontecendo ao mesmo tempo. Durante muito tempo tivemos poucos caminhos para descobrir o que estava acontecendo no mundo musical. Fomos alimentados pelas mesmas maneiras durante anos. Recentemente, tudo mudou. Culminando, por exemplo, no nascimento dos serviços de streaming com tecnologia de inteligência para traçar perfis psicográficos de consumo. O mainstream existe, mas os nichos são cada vez maiores e mais populares. “Hoje você tem várias formas de chegar no público. Antes o nicho era o lado mais específico do mercado e que era uma coisa necessariamente ligada a pouca quantidade tanto de consumidores quanto de produtores culturais. E hoje esses novos mainstream são nichos estéticos, de estilos, artísticos, mas que têm multidões de artistas e seguidores que estão conscientes dessas transformações e sabem que não existe só mais um grande jeito de chegar ao grande público”, diz Alexandre Matias (curador/moderador e fundador do Trabalho Sujo).

As novas tecnologias se encontram em um processo de puro crescimento, experimentação e descoberta. A compositora Céu comentou que no começo dos anos 2000 o momento era nebuloso e que “parecia que a música ia acabar”. Foi no processo transicional da queda do físico e com um digital imaturo, que a artista decidiu lançar seu primeiro álbum, Céu (2005), como um trabalho independente. “Em um ano, praticamente, eu tive que aprender inúmeras coisas que os artistas não sabiam. Simplesmente delegavam às gravadoras”. O meio digital, então, oferece a possibilidade incrível do artista tomar as rédeas de seu trabalho e conseguir lapidá-lo o mais próximo possível à sua identidade. Ao mesmo tempo, é uma tarefa longa e complexa para dominar todo o processo de produção e comercialização de seu produto musical. “Somos uma geração que faz à mão, que faz acontecer e seja da forma que for, a gente dá um jeito e a gente tem que aprender. Tem que se virar, saber vender o disco, como vai chegar nas pessoas. E essa é uma das maiores virtudes que a gente tem que passar”, Céu.

O rapper Emicida, através da referência de Racionais MC e Sabotage, tinha o objetivo de transmitir uma ideia que fosse importante e relevante, sem ambição mercadológica inicial. Quando um amigo contou que um de seus vídeos de improviso chegou a 1 milhão de views, pensou: “1 milhão de views vale o quê? Se cada uma dessas pessoas me desse um real tava bom. Mas depois eu comecei a pensar no poder da informação, como a gente se comunica, como isso chega pras pessoas e como isso tem um impacto”. Em 2009, lança sua primeira mixtape pela Laboratório Fantasma, gravadora independente. “Comecei a entender que a música movia as pessoas e que os artistas precisam ter mais acesso ao business para cuidar melhor da arte […] Montamos nossa empresa para não ter um terceiro que não entende sobre o rap ou seu contexto, e a gente parte desse critério até hoje”.

Bom, mas quais dificuldades referentes à tecnologia os artistas ainda têm que saber lidar? Pela velocidade, um disco de dois meses já está velho: “Na verdade, acho isso um desrespeito com a arte”, diz a compositora Céu. Pensando nisso, o compositor, cantor e produtor, Lucas Santtana lança, ainda este ano, o disco “Modo Avião” – com uma proposta para que as pessoas fiquem por alguns minutos offline (e ouçam, através de uma experiência, o disco)“Eu particularmente me sinto cansado dessa rapidez. Acho que é um tempo mais das máquinas do que da gente. Isso tem gerado em mim uma sensação física, mental e psicológica de uma aceleração muito grande. Então, eu tive a necessidade humana e existencial de fazer esse disco.”

Mahmundi, cantora e produtora, já nasce em um mundo sem discos, com a internet e suas diferentes plataformas na mão. Durante sete anos trabalhou como técnica de áudio, apenas assentando o terreno de sua música. A artista surge online; sem dinheiro ou conhecimento para gravar, dedicou-se a um longo trabalho até chegar onde queria. Lançou, então, em 2016, seu primeiro álbum, “Mahmundi”, produzido por ela mesma em seu home studio. Diz ter recusado o convite de diversas gravadoras e marcas, pois gosta de ver essa conexão como uma parceira, e, portanto, escolhe-as conscientemente para que estejam de acordo com seu trabalho. “A ideia desde o começo era unir pessoas que tivessem o mesmo pensamento que eu. Eu recusei vários convites de gravadora. A ideia era criar um mercado novo, com pessoas da mesma idade que eu”. Inclusive, ficou claro a relação dos quatro músicos com as marcas e as oportunidades oriundas da fama efêmera das redes sociais. 

Portanto, parte da conclusão é um ponto de equilíbrio. O artista usufruir dos novos meios que estão disponíveis e que continuam surgindo, conseguir decidir como quer que seja sua música, através do conhecimento de todo processo musical e disponibilizar isso para o público que está cada vez mais interessado por novos estilos musicais. “Essa geração também foi percebendo que cada um precisa encontrar seu jeito de distribuir, de se comunicar com o público, de gravar o disco. Cada um é um caso à parte. Antes da nossa geração, não se existia no Brasil a preocupação com o som [instrumental]. Aqui a cultura sempre foi a voz do cantor e a letra. A nossa geração nesse sentido foi muito revolucionária ao trazer o som, que é tão importante quanto a canção. Isso é porque não só a gente se apropriou e foi percebendo como cada um devia fazer o business, mas também como cada um devia usar da tecnologia pra encontrar o seu som”, diz Lucas Santtana.

A tecnologia fez com que não exista mais só um único – e grande jeito – de chegar ao público (a um grande público), ajudou o nicho a crescer, se fortalecer e se unir.  A geração que demanda a novidade, procura músicas diferentes, diariamente, e também está disposta a colocar a mão na massa, aprender e saber se virar para fazer sua carreira acontecer. “Na melhor das possibilidades, se sua carreira virar, você vai poder delegar com uma propriedade maior, porque você sabe do que você tá falando, porque você vivenciou aquilo ali”, conclui Emicida. O primeiro evento Spotify Talks encerra com o brilho da mudança, da transformação e da expansão humana criativa, que através da música vai mostrando seu potencial. Entusiasmados e ansiosos pela próxima edição.

Para mais momentos sobre o evento: siga a #SpotifyTalks e nossas redes sociais.

Texto: Helena Villar
Edição: Gustavo Giglio
Captação e entrevistas: Melina Kato e Ricardo Tibiu