Não é novidade que o mundo da tecnologia e negócios se apaixonou pelo Metaverso nos últimos meses. Nesse ecossistema de realidade virtual, os usuários podem interagir com um ambiente gerado por computador e com outros usuários. 

O preço de algumas dessas propriedades virtuais passou da casa dos milhões de dólares e inúmeras empresas anunciaram investimentos altíssimos no desenvolvimento de algum tipo de ambiente virtual próprio. O tema tomou as pautas rapidamente, especialmente depois que o Facebook anunciou a mudança do seu nome para Meta, sinalizando que irá tentar liderar o movimento em escala global. As promessas são de uma revolução no mundo dos games, conectividade, reuniões virtuais, compras online e muitos outros campos.

Tanto alvoroço me deixou bastante intrigado. Precisamos justo agora tentar replicar a realidade em um mundo totalmente “novo” e virtual?

É compreensível que a realidade não pareça tão animadora: aquecimento global mostrando consequências reais e visíveis, índices de desigualdade crescentes, depressão e ansiedade se alastrando por todas as idades, crescimento vertiginoso de ideologias e políticas extremistas por todo o mundo, expectativa de que novas pandemias surjam, sem falar da vergonha de ainda convivermos com a fome em pleno 2022.

Não seriam esses os verdadeiros desafios que deveríamos estar focados em resolver? É realmente hora para investir tanto dinheiro e energia em criar novos mundos virtuais? E os (inúmeros) problemas do mundo real, quem cuida? Não vejo muitos interessados.

Sinto que muitas vezes queremos nos esconder por trás dos tais avatares virtuais (“bonequinhos” que são a nossa versão no espaços virtuais do Metaverso). Tentamos fugir dos problemas aqui da terra e criar uma espécie de realidade paralela onde podemos ser quem quisermos e literalmente construir e colorir tudo do zero, do nosso jeito. 

Quanta ilusão… Vamos seguir precisando dos nossos salários para comprar os equipamentos de realidade aumentada para acessar o Metaverso (que inclusive, custam uma fortuna). Seguiremos precisando de nossas casas com energia elétrica para estarmos conectados, de ar puro para respirar, água e comida de qualidade, saneamento básico e de governos que estejam minimamente preocupados com a privacidade e proteção dos nossos dados (que estarão cada vez mais na mão das corporações que irão gerir o Metaverso). Todos estes são problemas da ordem do real.

O Metaverso parece mais uma dessas empreitadas do mesmo tipo da “batalha de conquista espacial”: uma tentativa de fuga da nossa realidade aqui e agora por quem mais devia estar envolvido na solução de problemas reais.

Elon Musk e Jeff Bezos querem ir à Marte. Mark Zuckerberg quer que qualquer um crie seu planeta em um ambiente virtual. 

Alguém ainda se interessa pela Terra?

Se uma fração desses investimentos e da energia de tantas pessoas brilhantes fossem dedicados à problemas reais… Talvez em pouco tempo a Terra, na sua versão real, pudesse ser bem melhor que qualquer ambiente virtual.

Bruno Rebouças

Já fez de quase tudo nessa vida. Piauiense, surfista, kitesurfista, empreendedor e psicanalista em formação. Já trabalhou em grandes empresas como o Google, teve carreira internacional e fundou 2 empresas de grande sucesso. Hoje é investidor e mentor em algumas empresas. Inquieto por natureza e voraz por conhecimento.

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