Um grupo social, qualquer que sejam os critérios que levaram à sua formação (geográficos, situacionais, sociais) tem a linguagem comum como um dos principais fatores construtores de sua identidade. Um mesmo idioma possui inúmeras derivações que alteram não somente o significado de palavras comuns, como também criam neologismos e/ou estabelecem interpretações específicas de algo em função de contextos deste grupo social. “Aquela a que chamamos rosa, o mesmo doce odor teria se outro nome tivesse?

A aceitação e consequente sentimento de pertencimento a um grupo estão ligados à compreensão deste código de comunicação criado, aliás, tanto para valorizar o grupo em si como para delimitá-lo, ou seja, excluir aqueles que não compreendem o significado, onde esta exclusão se dá por razões funcionais (evitar que outros compreendam o discurso) ou de por razões de identidade (identificação daqueles que fazem parte do grupo para criar o suporte social, um porto seguro na sociedade em geral).

As transcrições de gravações entre bandidos, mais que um trabalho de investigação, também é um exercício sobre a fluidez da comunicação.

Recentemente a gestão de pessoas passou a adotar tal técnica para reforçar e enaltecer o vínculo entre funcionários e a organização que os emprega. “Googlers” (funcionários do Google), “Genious” (funcionários que atuam no suporte técnico da Apple), “Nubankers”, “Facebookers” – assim como terminologias próprias para designar funções comuns em todas as empresas: “Você não é um supervisor de equipe, é um ultra-tech-jaspion-x-men-lead” – visam dar uma percepção de status superior àqueles que compartilham deste código e/ou criar intimidade entre um indivíduo e o espaço onde todos podem compartilhar destes jargões, reforçando seu senso de pertencimento e mesclando a identidade individual com a identidade social.

O nome como diferenciação (dos outros), o nome como pertencimento, o nome como representação do ‘eu’ e ferramenta de auto-estima.

Havia, anteriormente, escrito sobre como os emojis tornaram-se símbolos não somente de linguagem, mas representantes de uma cultura comunicacional. Nesse texto, também citando casos onde o idioma (ou código de comunicação em um grupo) era determinante para aceitação e difusão de uma ideia ou sentimento, bem como para solidificação da identidade, ainda que de universos ficcionais:

A força do idioma na construção dos valores também foi explorada pela ficção, como os idiomas Klingon (Jornada nas Estrelas), Na’vi (Avatar) e Dothraki (Game of Thrones). Aliás, a melhor ilustração para este pensamento foi a Novilingua, uma adaptação criada pelo governo absolutista do livro 1984, de George Orwell: se você não sabe como se referir a um sentimento ou ideia, você não tem como pensar neles – o que permitiria, então, um melhor controle sobre a sociedade.

Dicionário da Novilíngua (Newspeak), idioma ficcional de “1984”, de George Orwell

Dentro desta questão, está a criação de neologismos, seja para referir a um significante já existente ou para nomear elementos próprios e únicos de um grupo (mesmo sabendo que a história das 30 palavras  dos esquimós para explicar a ‘neve’ é falsa), bem como a nomeação de algo, ou seja, dar o nome para referenciar-se a um fenômeno ou situação recorrente ou permanente.

Um divertido exemplo vem do filme “Monstros S.A.”, quando Sully passa a chamar sua fofinha companheira de “Boo”, ao que é interpelado por Mike Wazowski: “Se você dá um nome, você se afeiçoa”. E o vínculo/desvínculo entre os protagonistas e a menininha permeiam toda narrativa, afinal, é “manda esse treco de volta senão o bicho pega!“, e não “mande a Boo de volta”.

Manda esse treco de volta senão o bicho pega! (O bicho pega!)

Este pensamento não poderia estar mais próximo da realidade. Dar nomes não apenas facilita a referência mas também cria uma aceitação sobre sua existência. Trazendo para questões práticas, “Cracolância”, “PCC”, “Fernandinho Beira-Mar” são nomes próprios que facilitam o entendimento, mas, ao mesmo tempo, criam uma situação de conformidade e normalidade para com sua existência.

Dar um nome significa aceitar como parte integrante daquela realidade, seja este elemento algo “bom” ou “ruim” para a sociedade ou mesmo para o grupo que originou tal nomenclatura. Um nome próprio tem a capacidade de criar um efeito eufemístico para um fenômeno.

Por outro lado, no caso de elementos maléficos para a sociedade (ou, melhor dizendo, que não deveriam existir, independente das razões que levaram a tal), assume-se sua existência, gera-se conscientização sobre o fato, o que poderia, em teoria, mobilizar a opinião pública a estudar as origens do fenômeno e agir conforme.

De uma forma ou de outra, dar nome a algo cria um vínculo entre este ‘algo’ e o ambiente (e indivíduos) que o cerca. Se o nome próprio de alguém é um elemento de individualização da pessoa na sociedade, o nome de algo atesta sua existência e pode, ao mesmo tempo, torná-lo como algo aceito na sociedade, para o bem ou para o mal.

Published in Comportamento

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JC Rodrigues
JC Rodrigues (jcrodrigues.net) é mestrando em comportamento do consumidor, palestrante, especialista em negócios digitais e impacto da tecnologia no comportamento humano. Professor de Storytelling e do MBA em Comunicação Digital na ESPM, e de Gestão de Crises em Social Media na PUC; tem uma pug chamada Maya, publicou o livro "Brincando de deus - Experiências de Imersão Digitais" e, volta e meia, escreve artigos despretensiosos sobre a digitalização da vida.

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  1. A bela e o dragão (Mário Quintana) – As coisas que não têm nome assustam, escravizam-nos, devoram-nos… Se a bela faz de ti gato e sapato, chama-lhe, por exemplo, a Bela Desdenhosa. E ei-la rotulada, classificada, exorcismada, simples marionete agora, com todos os gestos perfeitamente previsíveis, dentro do seu papel de boneca de pau. E no dia em que chamares a um dragão de Joli, o dragão te seguirá por toda a parte como um cachorrinho…

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