Afinal, existe uma fórmula para se fazer um hit musical?

Existem duas fórmulas secretas famosas.
A da Coca-Cola. E a do hit musical.

Mas será que tem mesmo uma receita de bolo infalível, capaz de afirmar com certeza que uma música vai agradar, antes mesmo de ser lançada?

Muita gente diz que sim. Tanto é que a indústria do entretenimento constrói cada vez mais pragmaticamente seus artistas.
E muita gente que diz que não, que isso um exagero, afinal música não é matemática e precisa ter alma. É arte, não engenharia.

Bom, a Bristol University (Inglaterra), namora essa fórmula há 50 anos.

Desde 1962 os caras estão lá com os fones nos ouvidos, estudando o Top 40 britânico atrás de alguma coisa em comum entre os hits. E entre os flops também.

Levam em consideração tudo o que é possível tabular sobre uma música.

Duração,  BPM, compasso, ritmo, complexidade melódica, a estrutura (refrões, aquelas coisas de AABA, etc), tom de voz, agressividade, suavidade, dançabilidade, enfim, tudo.

Além de investigar as músicas em sí, também precisam levar em conta as mudanças no gosto musical em diferentes épocas, porque muda bastante com o passar do tempo.

Por exemplo, na década de 60 as músicas intermináveis de 8 minutos era o que fazia, literalmente, a cabeça da galera. Hoje em dia, se não encantar em 15 seguntos ou se passar de 2 minutos, já toma uma clicada.

Dá uma olhada nesse video abaixo (muito legal) e repara como foi mudando a noção do que é a “boa música”, desde 1962. Vai com o dedo no pause porque é bem interessante.
Quanto mais as barrinhas das características crescem para a esquerda, mais elas estavam presentes nos hits da época.

Evolution of Musical Features

Olha lá, em 1964, quanto mais complexa e elaborada a harmonia, mais os doidões gostavam.

Astronomy Domine (Pink Floyd)

Música boa tinha que ter longa e letárgica (nada energética).

Claro, a música era a trilha da viagem e parte fundamental das experiências psicodélicas com as drogas e o estilo hipponga. Música era feita para prestar atenção e mobilizar as pessoas.

Se você voltasse no tempo e colocasse uma Lady Gaga lá na estação de Rádio da década de 60, sangue escorreria pelas orelhas e muita gente iria morrer por asfixia auricular, um verdadeiro musicídio.

Na década seguinte o pessoal resolveu dar um tempo no cérebro, escorreu a baba no canto da boca e decidiu usar o resto do corpo. Música boa era aquela que dava para dançar. Começou com a Disco Music e depois foi ficando  mais eletrônica, durante os anos 80, quando os hits tinham esse levada:

Tainted Love (Soft Cell, 1981)

Don’t Go (Yazoo, 1982)

Foi a maternidade de grandes representantes do pop como David Bowie,  Madonna (craque na arte do hit making), Michael Jackson, etc.

Na década de 90, a fórmula mudou novamente. O pessoal tava suando demais e ficaram mais quietinhos. Foram 10 anos de baladinhas românticas, (de 70 a 90 BPMs), harmonias extremamente simples e refrões fáceis de aprender e cantar junto.
Essa aqui, por exemplo, o pessoal da Bristol University previu com quase 100% de certeza que seria um mega sucesso, antes dela ser lançada. E foi.

If You Don’t Know Me By Now (Simply Red)

Nos comecinho dos anos 2000 as barrinhas azuis vão ficando meio preguiçosas (quase somem em 1999) como se o gosto musical geral estivesse em crise de identidade. Os hits deixam de ter características comuns.

Até que começa uma estranha combinação de dançabilidade combinada com uma aversão a coisas muito repetitivas e previsíveis. É uma dançabilidade mais sofisticada, de show, de rave, menos pula-pula.

Creep (Radiohead, 1992)

Bom, mas afinal de contas, tem uma fórmula ou não têm?

Têm. É essa:

Me recuso a explicar, mesmo porque não saberia. Mas, basicamente, são 23 atributos, com pesos (importância) diferentes, dependendo da época.

A média de acerto da Brystol em previsões de hits antes de lançamentos é de 60%.

Criaram a “Score a Hit“, com softwares elaborados (“Machine learning”) que fazem esses cruzamentos de dados através da “Equação do Hit Potencial”. Não preciso nem dizer o quanto vale uma equação dessas.

No site, dá até para fazer o upload de uma música sua e ver como ela se sai no sucessômetro musical. Por exemplo, coloquei uma música do meu sócio Guga Giglio e deu um potencial de sucesso gigante, pena que ele tenha que cuidar dos novos negócios do Update or Die.

Enfim, depois de pensar nisso tudo, apesar de acreditar na eficiência dos algoritmos (taí os Pandoras da vida para provar) ainda acho que não existe nada mais eficiente do que os produtores musicais dos últimos 15 anos, os verdadeiros artistas por trás de tantos manequins cantantes e dançantes. Só tem fera, transformam o que você quiser em sucesso.

Esses caras vêm se aprimorado na arte do hit making há anos, apoiados pelo resto da indústria do entretenimento.

O índice de sucesso é, a cada ano, maior. E se antes as estrelas surgiam nas fazendas, nas ruas e nos botecos, hoje parece ser mais fácil criar tudo do zero.

Infelizmente esse procedimento laboratorial de enfiar música na sua cabeça tem seus efeitos colaterais e acaba dando uma pasteurizada geral na música, que fica com cara de chiclete docinho feito pra mastigar freneticamente por uns meses e trocar depois por outro, docinho de novo.

Aquelas famosas músicas “pra sempre” tem rareado. O que não é necessariamente ruim nem bom, só é diferente.

No fundo, acho que música boa é aquela que serviu de trilha sonora dos grandes momentos da sua vida e pronto. As coisas que você ouvia na adolescência enquanto desenvolvia o seu gosto musical. É o que ficou registrado na sua memória emocional. Que nem perfume.

E se o seu primeiro beijo for embalado pelo Michel Teló ao fundo… Michel Teló should be.

Fazer o que, tá impresso neurologicamente como a melhor música de todos os tempos.

O que importa, meu amigo e minha amiga, é que a música seja boa para você.

Se te faz bem, aumenta aí o seu volume, sai dançando e o resto do mundo que se exploda.

Ô-u-ôôôôôôô…listen to the music…