Uma advogada brasiliense que sonha em ser cantora, um casal curitibano empreendedor, um biólogo de São Paulo especializado em mental coaching, e um casal de médicos mineiros que ensina sobre o uso da cannabis na medicina. Juntos, compartilhamos – em Santa Rita do Sapucaí – a espaçosa casa de Dona Vera, uma senhora cuja religiosidade extrema é expressa até mesmo na senha de wifi: jesuscristo. Viemos para a quarta edição do HackTown (6 à 9 setembro), festival de inovação inspirado em modelos que privilegiam a ocupação dos espaços da cidade como o nosso querido SXSW, em Austin (EUA) e o alemão, Tech Open Air, para trocar experiências.

Mais do que a pluralidade que o festival oferece, por suas profissões e de onde vieram, essas pessoas que conheci na cidade e com quem tive a oportunidade de compartilhar a primeira refeição do dia, representam o que o festival tem de mais importante: as conexões humanas.

Escolhi ir para o HackTown pela vontade e curiosidade de passar um fim de semana diferente e não só pela inovação que o festival promete em si. Confesso que quando li sobre o evento e o convite a sair da bolha – fora a comparação com o SXSW e a presença de mais de quatro mil pessoas na cidade grade (muitos publicitários – grande parte do meu contato no dia a dia), não levei tão a sério. Entretanto, me deixei levar pelo discurso apaixonado dos que já conheciam Santa Rita do Sapucaí e abracei a causa.

A cidade é interessante:

Foi a primeira a ter uma escola técnica no País, em 1959. Sinhá Moreira, esposa de um diplomata, assistiu no Japão uma palestra de Albert Einstein e vislumbrou como a tecnologia poderia trabalhar a favor da humanidade. Convenceu o então presidente Juscelino Kubitschek a construir a Escola Técnica de Eletrônica na cidade. Moreira representa bem como tecnologia não é uma questão de gênero já há muitas décadas.

Empresas e institutos como o INATEL (Instituto Nacional de Telecomunicações) vieram na sequência e a cidade foi ganhando uma vocação natural para a agenda de inovação no País. Foi em Santa Rita do Sapucaí, por exemplo, que o 3G no Brasil começou a ser desenvolvido e também a televisão digital como conhecemos hoje. A cidade é sim um polo de inovação interessante e que deve entrar no roteiro de viagens delícias para Minas Gerais.

Pelo feriado prolongado, além dos painéis e workshops, caminhei muito ao lado de velhos e novos amigos, maravilhada com a energia que as pessoas de todo os cantos do País estavam empregando durante o HackTown. E, mesmo com o passar dos dias, as pessoas não paravam de chegar, a ponto de Dona Vera ir à farmácia pela manhã e voltar acompanhada de um casal de Belo Horizonte que estava dormindo no carro, pois todos os quartos da cidade estavam lotados. Ela simplesmente redistribuiu os lugares na hospedaria, mostrando que o tal espírito colaborativo/cooperativo deve estar presente em todos os aspectos de nossas vidas. Acolhedora como a charmosa cidade de cerca de 40 mil habitantes que abraça curiosos do País inteiro (e alguns de fora) celebrando essa grande festa inspiradora da inovação.

Das coisas mais legais que aprendi por lá:

Teve a aula de Luciano Cunha, quadrinista e criador do “O Doutrinador” sobre entretenimento e quadrinhos no Brasil, a sacada sobre a relação da ficção nos filmes de Kubrick com os assistentes de voz atuais, pela explicação de Simone Kliass e Jason Bermingham, e de como essa nova era de voz vai se desdobrar para as marcas e nossa vida diária, na visão de Cleber Paradela; passando pela conexão entre o sociólogo Domenico de Masi com a obra “Ócio Criativo” e a inteligência artificial, que Vinicius Soares citou; além do paralelo que Edwin Rager fez entre o jazz e o processo de inovação, só para citar alguns exemplos do que vi.

Apesar de ser uma das principais referências quando falamos da gastronomia mineira, o pão de queijo não foi o que me pegou, esta viagem vai ficar com gosto de burger de pernil embalado pelas atrações musicais do palco Rockambole na praça. O itinerário era certo, jantar e seguir para o Casarão Femto, outra boa atração no Festival. O local que no restante do ano é a república de 12 estudantes do Inatel, foi transformado em uma balada a céu aberto comandada pelos próprios moradores – os mesmos que fizeram o chopp artesanal servido. No palco improvisado da casa rolou Henrique Portugal e Mclav-in, entre outros artistas e bandas. E assim nos revezávamos entre o Casarão e o Libertas Brew Pub para ouvir até mesmo sets eletrônicos. O conhecido projeto Sofar Sounds também teve uma edição durante o HacktTown, mas como eram convites limitados muita gente ficou só na vontade. A casa Google Developers era o ponto de encontro para quem queria se inspirar e inovar através de ferramentas reais, já o Facebook levou debates para lugares inusitados, como o coreto central da praça principal da cidade. No mínimo simpático.

No meio de tudo isso, ainda tive o privilégio de participar de um painel sobre inteligência artificial, criatividade e o futuro das profissões. Algo que nunca havia feito, mas que me permitiu (e pediu) um processo prazeroso de preparação, estudos e, então, um ótimo debate presencial com colegas e plateia. Falamos sobre dados, avanços tecnológicos e previsões que apontam como será o mundo em que teremos assistência parcial ou total e o bem-vindo (ou não) complemento das máquinas. Um pouco assustador, mas para a nossa sorte, não há inteligência artificial que consiga superar o poder do toque, afeto, olhar e empatia.

Com mais 300 atrações que acontecem simultaneamente, entre debates, palestras, encontros e workshops, o HackTown te dá aquela sensação de que cada escolha será uma renúncia, entretanto, o melhor programa é mesmo encontrar pessoas para compartilhar e falar sobre o que aprendemos. É o que o palestrante americano e estrategista de futuros, Travis Kupp, me disse no primeiro dia sobre valorizar o conteúdo e o conhecimento que vem das conversas e conexões que fazemos nas ruas. Quando saímos do nosso lugar comum abertos ao novo, coisas extraordinárias acontecem, o aprendizado é quase involuntário ou inerente e vem de qualquer pessoa.

Imagina se a praça Santa Rita falasse?

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