Primeiramente queria deixar claro aqui que a questão não é a política em si, ok?

O que escrevi em relação ao reposicionamento do candidato Haddad não dizem respeito a partidos, propostas, etc. Não tenho a menor intenção de conseguir votos para um ou para outro candidato. Tire as lentes políticas e coloque as lentes estratégicas. Apesar de vivermos entre pessoas inflamadas, acho rica a oportunidade de escrever sobre como a leitura de um discurso (seja ele visual ou textual) diz muito sobre a estratégia de reposicionamento de uma marca.

Sim, o PT é uma marca e é sobre a campanha do Haddad que vou destrinchar um pouquinho aqui. Está pronto para a jornada? Se você não estiver, por favor, clica aí em outro link do UpdateOrDie e leia outra postagem interessante.

Estando avisado e combinado, vamos seguir em frente:

Todo mundo sabe: segundo turno ou é Bolsonaro, ou é Haddad (coloquei os sobrenomes na ordem alfabética… porque até nisso a galera pode me pentelhar). E sabemos que os candidatos são opostos um ao outro. Em termos de estratégia de branding podemos dizer que são marcas que concorrem em um mercado altamente competitivo. Ambas tem “clientes” que são não apenas fidelizados, como atingiram aquele patamar que qualquer marca busca: ter verdadeiros “evangelistas”.

Tipo aqueles fissurados pela Apple que tentam “converter” todo mundo que usa Windows.

No segundo turno o que vai definir será (óbvio) a quantidade de votos. E o que os partidos tão polarizados tentarão fazer? Isso! Buscar apoio em outros partidos, de outros candidatos, diminuir a rejeição de votos e tentar captar mais votos.

Aí é que está o pulo do gato.

No começo da campanha do Haddad a “cara” das peças tinha elementos muito marcados: a estrela vermelha. A faixa estilizada verde e amarela na letra A. A cor vermelha em grande contraste. O nome Lula. A foto do Lula.

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Onde não colocavam o vermelhão em destaque, usavam o plano de fundo mais limpo e “ensolarado”, com os nomes HADDAD; LULA; a faixa verde e amarela; a letra vermelha; a estrela branca.

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E a campanha seguiu essa linha em todo o primeiro turno. Sempre com o nome HADDAD, LULA e a cor vermelha. A faixa verde e amarela era apenas um elemento discreto no design como um todo.

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Mas aí, amigão, chegou o segundo turno. Haddad agora precisa mudar a estratégia. E como marca é preciso tomar algumas medidas cruciais para o sucesso (no caso, conseguir apoio e voto de outros partidos). Então para esse novo momento é preciso que alguns elementos visuais pudessem ser mais “aceitos” pela oposição, ou que esses elementos comunicassem uma maior abertura e sinergia com o Brasil como um todo.

Foi aí que a equipe de comunicação já começou comemorando as pesquisas, que indicavam a chegada do candidato ao 2º turno, com uma postagem um pouco mais “verde e amarelo”. A marca HADDAD ainda manteve o nome LULA.

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Exatamente hoje (dia 10/10/2018) o PT mudou em sua página oficial no Facebook o cover e o avatar. É muito interessante perceber o reposicionamento de comunicação visual:

1) Plano de fundo com tonalidade azul e amarela (largaram mão do vermelhão).
2) A lembrança do vermelho do PT fica apenas no círculo vermelho com o número 13 em amarelo.
3) O nome PRESIDENTE ganha mais tamanho.
4) Sai o nome LULA. E também sua foto.
5) O nome VICE: MANUELA ganha mais tamanho também.
6) Eliminam o sobrenome D’ÁVILA – o que dá mais humanidade e intimidade à presença da vice.
7) O nome HADDAD agora é composto com as cores da bandeira.

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Entre esses, e outros motivos, é que sou fascinado por Branding, por Design, por Estratégia, por Análise de Discurso e por Semiótica. Disciplinas que passamos pela faculdade e, muitas vezes, nem nos percebemos de como elas são utilizadas, e também de como elas podem – sim! – influenciar nas decisões.

O candidato do PT agora se mostra muito mais aberto, mais “Brasil”, menos “pêtêzão”, tentando talvez diminuir a rejeição que existe entre eleitores de outros partidos ou outros candidatos, mais aberto a parcerias. Até a “saída” do Lula da campanha (nem sua foto, nem seu nome estão presentes nessas peças) indicam um posicionamento mais autônomo do candidato, tentando sair um pouco mais da sombra de seu padrinho. É estratégia, pura e simples, no final das contas. Leva em conta diminuir a rejeição por um lado, e a captação de votos por outro lado.

Analisando tão somente como Branding acho que esse reposicionamento é extremamente assertivo. Casa com a estratégia desse momento.

Ainda preciso saber o que os petistas de coração acharam, como os petistas de coração se sentiram com esse novo posicionamento. Quem sabe acharam ruim, ou bom? Isso só vou saber nas minhas rodas de diálogo (onde houverem rodas de diálogo saudáveis, obviamente).

Não sei como terminar esse texto, então termino assim, com uma pergunta de reflexão:

Em termos de Branding, o que você achou?

Estou interessadíssimo nos comentários!

😀

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