A arte de encantar as pessoas

Imagine usar fino acabamento em locais que nunca ou dificilmente serão vistos por olhos humanos. Steve Jobs aprendeu muito cedo a importância que o design tem sobre as pessoas. Seu pai o ensinou que, mesmo oculto das pessoas, o trabalho feito numa cerca, por exemplo, deveria sempre ser feito com arte e esmero, já que seria lembrado por quem o criou. Esse é o segredo.

Quando construiu os primeiros computadores na Apple, ele fazia questão de que cada parte da máquina fosse perfeita, inclusive que o logo da empresa estive aplicado em lugares especiais, mesmo oculto dos olhos do usuário.

O criador da Filosofia de Marketing para a Apple, Mike Markkula, que também tornou-se um dos financiadores da Marca, definiu o futuro da empresa quando escreveu os 3 tópicos que compõem o manifesto. Para ele, empatia, foco e design elegante seriam os pilares para o sucesso da empresa.

Primeiro, a Apple deveria evoluir para uma conexão íntima com os sentimentos de seus clientes, e compreender suas necessidades melhor que seus concorrentes. Além disso, deveria ter foco nos objetivos estabelecidos, sem desperdiçar energia com coisas não importantes. Fechando o manifesto, Markkula afirma que design é tudo. Ele defendia a ideia de que as pessoas sempre julgam, sim, o livro pela capa. Então, se vamos criar tecnologia, que a façamos da forma mais elegante possível. Assim, os clientes teriam todas as razões para se apaixonar pela marca: relacionamento e estética de alta qualidade.

CONEXÃO PURA

Seguir uma tendência é chegar atrasado demais. Claro que criar uma seria um duro desafio a ser encarado, compreendido e colocado em prática. Mas, há quem mergulhe de olhos abertos nesse tipo de “loucura”. Quando Mike Markkula escreveu a Filosofia de Marketing da Apple, ousou de uma forma completamente nova, já que as empresas de tecnologia à época, simplesmente lançavam produtos baseados apenas na opinião de executivos tecnocratas. Seguir um caminho contrário, ainda mais concorrendo com gigantes como a IBM, seria um risco demasiadamente impensável.

Os princípios usados para codificar o DNA da marca Apple serviram para definir o futuro da empresa. O primeiro foi a empatia, uma conexão íntima com os sentimentos do cliente: “Nós realmente entenderemos melhor suas necessidades do que qualquer outra empresa”, defendeu Markkula. Isso consolidou a empresa no caminho de quase sempre antecipar as necessidades de seu público.

O projeto Macintosh tinha esse objetivo. Como resultado, evoluiu para se assemelhar a um rosto humano. Com a entrada de disco abaixo da tela, a unidade era mais alta e mais estreita do que a maioria dos computadores, sugerindo uma cabeça humana. Mesmo que Steve não tenha desenhado nada no projeto, suas ideias e inspiração o tornaram único. A equipe de projetistas não sabia o que significava um computador ser “amigável”, até que Steve mostrasse como. Talvez o maior salto conceitual que Steve Jobs fez nos primeiros dias da Apple foi reconhecer que a tecnologia pode e deve interagir com a emoção das pessoas. Ao longo dos anos, a Apple criou dispositivos amigáveis, e isso é uma estratégia de design destinada a atrair consumidores novatos e as pessoas saturadas de equipamentos chatos e sem graça.

E pensar que estamos falando de equipamentos eletrônicos. E pensar também que o design se aplica a estratégias de relacionamento, mesmo que ele se inicie na concepção estética de algo concreto. Seja um prato, uma garrafa, uma decoração, uma taça, um acabamento, um corte de cabelo, uma viagem, um tanque de gasolina cheio, um buquê de flores, etc. Não importa, desde que seja feito para atingir o coração de seres humanos de verdade, pessoas que sentem e buscam sentir, para além do que veem.

SIMPLICIDADE

Metáforas são uma boa forma de simplificar as coisas. Basta fazer uma boa associação de sentido pra facilitar o entendimento das pessoas. Às vezes, uma situação super complexa pode ser explicada em poucas palavras, quando usamos uma metáfora simples. Leonardo da Vinci, um dos homens mais complexos e marcantes da história, já havia declarado que “simplicidade” é o que há de mais sofisticado para o ser humano. Será?

Steve Jobs, na hora de conceber os primeiros produtos da Apple, decidiu atribuir sentido e significado a tudo que estava criando naquele momento. Ele acreditava que as coisas precisavam ser simples o suficiente para inspirar intuitivamente quem fosse usar seus computadores. Um bom exemplo de “atribuição” dos valores da Apple está nas pequenas decisões: Jobs passou horas aperfeiçoando as bordas das janelas no primeiro Macintosh. Quando seus projetistas reclamaram, ele argumentou que os usuários iriam olhar para aqueles detalhes por horas, então eles tinham que ser perfeitos.

Eu acredito que essas lições intuídas por Steve Jobs estarão sempre em evidência. A arte do design será sempre simplificar as coisas, se valendo dos detalhes acerca de como as pessoas vivem. No futuro, as perguntas sobre como será o destino do design permanecerão. Na era do design virtual, que é avaliado num piscar de olhos, as primeiras impressões acontecem em velocidades cada vez maiores. Eis o desafio para quem cria nos dias de hoje. As pessoas prestam cada vez menos atenção, e isso compromete o trabalho de quem cria. Acredito que as pessoas, mesmo viajando à velocidade da luz, ainda se emocionam com coisas simples. E são essas mesmas coisas que sempre marcam a nossa vida. O detalhe simples que se identifica com aquilo que sentimos e nos dá vontade de compartilhar com outras pessoas. Design é a arte de encantar as pessoas.

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William Barter
Consultor de marketing e autor do livro "Imaginação: A Arma Mais Poderosa do Universo". Idealizador do projeto Crie & Ative, que oferece cursos e palestras sobre criatividade em escolas e empresas.
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