Empatia robótica

Existem mais de 60 modelos científicos que buscam explicar e classificar as emoções humanas. Compreender como estímulos são processados no cérebro humano nos permite, por um lado, interpretar e antecipar reações e, por outro, forjar situações que estimulem determinadas emoções como na construção de histórias e narrativas em geral.

Wheel of emotions de Plutchik

Uma questão interessante neste quadro é o papel da empatia (que não é tratada como uma emoção em nenhum modelo) quando há uma interação entre, digamos “seres”. Os pesquisadores Kimberley Rogers, Isabel Dziobek, Jason Hassenstab, Oliver T. Wolf e Antonio Convit, da Escola de Medicina de Nova Iorque, enquanto estudavam a síndrome de Asperger (em uma explicação rápida, uma característica dentro do espectro do autismo que afeta a interação social e, do ponto de vista de quem não tem a síndrome, o vínculo emocional), resumiram abordagens de pesquisador sobre uma potencial classificação da empatia em três níveis: (1) a Afetiva, onde há capacidade de responder adequadamente ao estado mental de outro indivíduo com quem se interage (não contar piada em velório), (2) a Cognitiva, onde há capacidade de entender a perspectiva mental do outro e a relação com seu comportamento, ou seja, compreender que o comportamento é justificado pela perspectiva mental e (3) a Somática, onde há uma reação física nos sistemas sensoriais, cognitivos e motores tendo como estímulo a situação emocional do outro; quase que literalmente sentir o que o outro sente porque o outro está sentindo aquilo.

Um campo de estudo fascinante é justamente transpor estas relações de empatia para seres não biológicos. Tal visão pode, inclusive, questionar um postulado da Teoria Psicoevolucionária das Emoções Básicas de Plutchik (1980), um dos modelos mais citados, de que apenas seres que passam por um processo evolutivo (animais e seres humanos). Por isto, teríamos que separar o que é sentir emoções e expressar emoções.

Neste texto havia comentado sobre a empatia robótica e o papel da pareidolia na identificação de uma coisa como próxima de um ser vivo. A similaridade de forma facilita a aproximação para com algo já conhecido e cuja relação empática é aceita. Você sente dó quando Spot, o robô da Boston Dynamics, é chutado aos 20 segundos deste vídeo? (quando a Skynet chegar, agora sabemos quem atacou primeiro…)

Uma forma complementar de enxergar esta interação emocional é quando o ser não-biológico exprime sinais similares de emoções usando de expressões facilmente interpretáveis.

O psicólogo Paul Ekman (que atuou como consultor da série Lie to Me e do filme DivertidaMente da Pixar) cunhou um dos modelos de emoções básicas tendo, na verdade, como foco, o estudo de micro expressões humanas que explicitam estas emoções (caso nunca tenha visto, assista pelo menos um capítulo da série Lie to Me, de 2009).

Em uma interação, contudo, emoções são alternadas em função da empatia, ou de como o outro reage e vice-versa. Tentamos ajustar, consciente ou inconscientemente, nossas emoções como em um jogo de tênis, dependendo de como a bola nos é devolvida. Assim, a emoção nem sempre é um momento individual, mas também se forma a partir da flexibilidade (por vezes necessária nas interações sociais) de adaptar-se ao outro.

Estas colocações explicam como nossas emoções podem ser direcionadas e um exemplo, digamos, “fofo” desta aplicação é este pequeno robozinho, o Cozmo, criado pela empresa Anki e vendido pela Amazon por U$ 179,99.

Assista a este vídeo com exemplos de emoções expressas pelo Cozmo e, se você sorrir ou ficar com pena do robozinho, parabéns, você acabou de estabelecer uma relação empática com um ser artificial/robótico:

Cozmo

 

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JC Rodrigues
JC Rodrigues (jcrodrigues.net) é mestre em Comportamento do Consumidor (com estudos sobre carros autônomos e seres artificiais), palestrante, especialista em storytelling, negócios digitais e impacto da tecnologia no comportamento humano. Professor de Storytelling e do MBA em Comunicação Digital na ESPM, tem uma pug chamada Maya, publicou quatro livros sobre comportamento e tecnologia e, durante as crises de abstinência, escreve artigos despretensiosos a respeito da interação entre o ser humano e máquinas.

3 Comments

  1. Isso é muito louco mas de uma maneira boa

  2. Isso é incrível, uma conexão muito mais profunda

  3. Fabio Galanos Torres como no filme TAU

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