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O sentido da vida é termos problemas. A diferença está em quem os cria

Uma conversa sobre a equiparação dos desafios em um game com o papel do trabalho (e/ou emprego) na vida das pessoas foi o ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre como os seres humanos são motivados a realizarem tarefas, perseguirem objetivos e, essencialmente, viver.

Quando estudando experiências digitais imersivas (mas não somente aplicado a elas), pude notar a extrema necessidade de transpor desafios imprevistos para o ambiente virtual a fim de tornar esta existência alternativa não somente mais crível, mas também mais imersiva. Aquilo que a gamificação chama de “flow” e o storytelling de “conflito” é a força motriz da vida, ou melhor dizendo, do sentido da vida.

 

E aqui podemos cruzar uma série de atividades e disciplinas para aprofundar o conhecimento do comportamento humano. Novamente, em experiências imersivas, a convivência dos indivíduos só será bem sucedida se, individual ou coletivamente, considerarmos a necessidade (ou hábito) humano de enfrentar desafios externos e recorrentes.

The challenge is out there…

Citando Joseph Campbell e sua Jornada do Herói, o primeiro momento da jornada trata justamente da mudança do status quo (ou, nos termos de Campbell, o início da saída do mundo real para o mundo mítico).

Acrescento que este movimento pode ter origem em um inconformismo interior do protagonista (herói) ou em elementos externos que, à revelia, alterem a situação em que o protagonista (herói) se encontrava.

No primeiro caso, estamos falando do próprio herói se colocar na situação de ‘desconforto’, seja pelo inconformismo com a forma como as coisas acontecem ‘normalmente’ ou pela busca por algo melhor, acreditando que isto só será possível saindo de sua zona de conforto. No confrontamento com estímulos externos, há ‘algo’ que vem de encontro ao protagonista e que o obriga a movimentar-se (um meteoro vai se chocar contra a Terra, uma inundação vai acontecer, um novo competidor chegou à cidade, etc).

Certamente em algum projeto de pesquisa futuro devo avaliar a porcentagem de indivíduos que, conscientemente e espontaneamente, desafiaram o status quo, colocando-se à mercê do desconhecido e, com isso, atraindo para si novos desafios. Tenho a impressão (como disse, impressão) que grande parte da população necessita que estes desafios lhes sejam impostos externamente, coisa que a ‘vida’ já faz muito bem.

A segurança, hoje traduzida em estabilidade financeira, física e emocional, só é possível através do trabalho ou esforço (ainda que este esforço seja administrar seus rendimentos passivos :)). O trabalho nos define como indivíduos porque, a princípio, é a fonte primária de desafios constantes; ele, na verdade, nos oferece desafios e conquistas frequentes e constantes (metas / salário) para se chegar em um grande objetivo – que a maioria das pessoas não tem definido, ou, simploriamente, colocam como “aposentadoria”.

A relação entre esforço e recompensa pode, para alguns, assemelhar-se à ‘Teoria do Flow’, de Mihaly Csikszentmihalyi, estudado em Gamificação.

Se assim for, o trabalho será uma busca constante e infindável do equilíbrio entre o tédio e a ansiedade. Mas se o plano for desassociarmos a recompensa (estabilidade financeira, física e emocional) do trabalho (formalmente dito), teremos mais liberdade para escolher os próprios desafios.

Aos aptos a desafiar o status quo a partir de inquietudes internas, a independência entre trabalho e recompensa é seu principal objetivo. Para os que necessitam de estímulos externos constantes para se movimentarem, a vida será um trabalho eterno.

A diferença está em quem escolherá os problemas que teremos que resolver.

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Written by JC Rodrigues

JC Rodrigues (jcrodrigues.net) é mestre em Comportamento do Consumidor (com estudos sobre carros autônomos e seres artificiais), palestrante, especialista em storytelling, negócios digitais e impacto da tecnologia no comportamento humano.
Professor de Storytelling e do MBA em Comunicação Digital na ESPM, tem uma pug chamada Maya, publicou cinco livros sobre comportamento e tecnologia e, durante as crises de abstinência, escreve artigos despretensiosos a respeito da interação entre o ser humano e máquinas.

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