Ontem fiz aqui um post sobre como é possível conviver pacificamente com a Inteligência Artificial no que diz respeito à criação musical.

Resumidamente, compositores não vão perder seus empregos, a IA vai ajudar a solucionar problemas e acredito que a tecnologia está aí para nos beneficiar.

Pode não ser (acredito também) a forma mais avançada de se conseguir resultados inovadores (muito pelo contrário), mas a IA efetivamente ajuda.

O William Barter, também colunista do Update Or Die, também levantou várias questões sobre originalidade em um texto bem interessante, o que me fez pensar mais um pouco sobre o assunto. Concordo plenamente com o que ele escreveu lá, que a verdadeira criação nunca será suplantada por uma máquina. Ser disruptivo não faz parte da inteligência de uma IA.

E para completar, ainda participei como painelista (existe isso? Quem participa de painéis de discussão?) no evento “Music, AI and Creativity Meetup” que rolou ontem à noite aqui em Berlin.

No evento foram apresentados alguns cases de IA e neste painel de discussão participamos eu, Ryan Groves (presidente da Melodrive), Amélie Anglade (consultora de Data Sciene focada em IA), Andy Elmsley (fundador do Melodrive), Athanasios Lykartsis Matt Strobel(Diretor de Audio-comunicação e pesquisador na TU Berlin) e o Matt Strobel (presidente do MusicTech Deutschland).

Uma discussão muito interessante sobre como a IA já está mudando tudo que fazemos relacionado à Música.

Aí surgiu um tópico que dá mais espaço para ampliar a conversa toda.

Os efeitos legais do uso de IA para criação musical.

Basicamente é o seguinte:

-Existem dois tipos de direitos associados à criação musical. O Direito Autoral e o Direito Fonomecânico.

Direito Autoral é aquele que pertence ao autor, ao criador da melodia, música, harmonia, etc. O que é devido moral e legalmente ao criador da música.

Direito Fonomecânico é aquele que pertence à quem efetivamente é o “dono” da gravação. Quem pagou pela gravação, quem distribuiu, quem é o dono do fonograma gravado.

Um exemplo:

-Beatles – I want to hold your hand

Direito autoral – Lennon/ McCartney

Direito fonomecânico – Parlophone Records (no Reino Unido), Capitol Records (ons EUA).

Simples assim. Os dois direitos andam juntos quando a música é gravada e lançada.

Mas, no caso desta versão ao vivo do vídeo acima, só incidem direitos autorais, pois não estamos usando a versão gravada pela EMI na época.

Um pouco complicado, mas é assim que funciona desde Gutenberg.

E aí vem a pergunta:

Quando uma Inteligência Artificial compõe a música, de quem é o direito autoral?

É de quem apertou o botão?

É de quem comprou o software?

Da empresa que criou o software?

Pode parecer uma bobagem, mas o dinheiro movimentado com pagamento de direitos autorais e fonomecânicos em 2016 foi da ordem de 7,7 Bilhões de dólares.

Uma grana considerável.

E prá quem vai parte disso quando uma IA cria a música?

A pergunta faz mais sentido ainda quando sabemos que uma das frases mais usadas para assistentes virtuais como a Alexa ou o Google Home é “Play me SOME music”.

Este “SOME” (alguma) é fundamental para sua experiência seguinte.

Imagine um mundo onde as grandes gravadoras, as grandes provedoras de conteúdo (Amazon = Alexa, Google Home = Google) e as plataformas de streaming começarem a criar suas próprias músicas usando Inteligência Artificial.

“Play me some music” na Alexa? Você cai numa playlist só com músicas da Amazon. Tanto em direitos autorais como em fonomecânicos.

“Play me some music” no Google? A mesma coisa.

E as gravadoras? Vão também ter seu acervo de músicas criadas em IA? Vão lançar playlists exclusivas com seu conteúdo como já fazem com artistas “normais”?

Podem ser músicas legais, podem ser umas porcarias, mas podem ser (e provavelmente serão) músicas que não tem nenhuma relação com seu gosto pessoal.

Prá quê você quer alguma música que você goste? Você pediu “alguma” música. Ouve aí o que eu fiz…

Ano passado as gravadoras caíram em cima do Spotify por este usar várias músicas de autores recorrentes e não conhecidos em suas playlists diferenciadas, como aquelas “Foco para Trabalho”, “Música para ouvir enquanto Anda”, “Meditação”. Dava a impressão que as músicas foram criadas para aquela playlist, numa tentativa de gerar conteúdo internamente.

Disseram as gravadoras que o Spotify estava criando e usando músicas criadas internamente para não ter que pagar direitos para outras empresas, fazendo com que a grana ficasse lá dentro.

Tá errado isso? O Spotify fez algo fora de ética? Ou é “mimimi” de gravadora que tem medo de perder uma fonte de renda?

Boa pergunta.

E também boa pergunta a ser pensada daqui alguns anos (ou meses), quando todo mundo começar a criar músicas via IA para abocanhar uma fatia desse mercado de 7,7 bilhões de dólares.

Tudo de bom,

Billy.

 

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