P****, falar palavrões diminui a sensação de dor

P*** que p****, eu falo pra baralho!

Não é pra chocar, nem falta de educação na infância.. falar palavrões é, na verdade, um importante – e universal – componente da comunicação humana e, assim, na sociedade. Eles ajudam tanto na regulação do humor, como no senso de pertencimento e motivação de equipes, como colocado no livro Swearing Is Good For You: The Amazing Science of Bad Language.

É interessante, contudo, pensar que os palavrões são tidos como obscenos não pela projeção de seu significado, quer dizer, não porque sua menção remeteria àquilo que querem indicar, mas apenas por sua própria natureza morfológica. Ou seja, mandar alguém à me*** não traz pensamentos escatológicos; a ofensa se dá unicamente pela menção da palavra, algo investigado pelo Dr. Millwood-Hargave no ano 2000.

Shout swearing words in speech bubble. Cry Open mouth. Teeth and tongue. foul language

Da mesma maneira, a explicitude do termo, sobretudo quando escrito, é mais grave que a ideia ou intenção por trás dele. 

Quer dizer, iniciei este texto incluindo asteriscos (p*** que p****) e um trocadilho (baralho) que, apesar do pseudo-mistério, em nada impede os leitores de identificarem exatamente os termos originais. O impacto, porém, é menor quando tais expressões não estão abertamente explícitas (o que também me permite publicar este texto em alguns locais que, do contrário, o proibiriam). Ao vivo, para expressar uma frustração, costumo usar um palavrão em alemão (as primeiras coisas que a gente aprende em outro idioma!), algo que jamais poderia pronunciar em público se estivesse na Alemanha mas que passa despercebido em terras brasileiras

Da mesma forma, a percepção de ofensa está diretamente relacionada ao repertório dos envolvidos. Poderia falar com toda ênfase a palavra SBRUBBLES que, por não fazer parte do repertório social, deixa de expressar qualquer significado, bom ou ruim. A origem de muitas das palavras feias hoje em dia, inclusive, é ignorado.

O mesmo com termos ditos palavrões. O uso constante e incorporado na sociedade parece reduzir seu impacto e, assim torná-lo mais aceito; no fundo, seu próprio significado original se perde com o tempo (como cita este artigo da Superinteressante, “você tropeça e diz ‘Pedra filha-da-p***!’ e a coitada da pedra nem mãe tem”).

Se não fossem vistos como obscenos ou agressivos, porém, será que teriam o mesmo impacto psicológico tanto naqueles que falam quanto nos que os escutam?

– Porra, essa é um pensamento bem interessante!

(falei “porra” e não creio que alguém associou a palavra a fluidos masculinos).

Não só porque “tudo que é proibido é mais gostoso”, o uso de tais palavras e expressões pode ser sinal de habilidade verbal e ajudar na resistência à dor, conforme estudos realizados na Escola de Psicologia da Keele University, no Reino Unido.

Com relação à habilidade comunicacional, há, em inglês, uma ferramenta chamada teste F-A-S, onde os participantes são desafiados a citar o maior número possível de palavras que começam com estas letras em um minuto. Outro teste – Swearing Fluency Task, ou, em tradução livre, “Tarefa de Fluência em Palavrões” – de forma similar pede que os participantes mencionem o maior número de palavrões em um minuto.

Quando as mesmas pessoas executam ambos os testes, curiosamente aqueles que sabiam mais palavrões também foram os que apresentaram maior habilidade de linguagem.

Este é um dos casos trazidos pelo Prof. Dr. Richard Stephens, autor do livro “Black Sheep: the hidden benefits of being bad” (sem tradução para o português), que lidera tais estudos.

Em outro estudo – Swearing as a response to pain, ou “Falar palavrões como uma resposta à dor” – foi investigado como citar tais palavras em um momento de dor aumentava a tolerância física dos participantes. A hipótese inicial era que falar palavrões seria uma adaptação evolutiva negativa e que resultaria em uma menor tolerância à dor.

Os resultados, porém, indicaram justamente o oposto. Sessenta e sete estudantes universitários participaram de um experimento onde, em resumo, submergiam suas mãos em baldes de água fria e, dentro de um tempo controlado, poderiam expressar a sensação desconfortável com termos escolhidos anteriormente. Reações biológicas foram medidas quando as palavras utilizadas eram consideradas palavrões ou não, demonstrando uma diminuição da percepção de dor.

Colocou-se que o efeito hipoalgésico (diminuição da sensibilidade à dor), quando os participantes diziam palavrões, era resultado de uma indução do mecanismo de luta-ou-fuga que, como consequência, anulava a relação entre a sensação (física) da dor e a percepção desta dor.

Enalteçamos, então, os palavrões como importantes elementos de linguagem e comunicação que são! E, mais do que isso, como ferramentas que libertam e empoderam interlocutores dando uma nova dimensão de intensidade (“estou com calor” é uma coisa, “estou com calor pra car****” é um outro nível de temperatura).

Não entendeu? F***-se… 🙂 

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JC Rodrigues
JC Rodrigues (jcrodrigues.net) é mestre em Comportamento do Consumidor (com estudos sobre carros autônomos e seres artificiais), palestrante, especialista em storytelling, negócios digitais e impacto da tecnologia no comportamento humano. Professor de Storytelling e do MBA em Comunicação Digital na ESPM, tem uma pug chamada Maya, publicou cinco livros sobre comportamento e tecnologia e, durante as crises de abstinência, escreve artigos despretensiosos a respeito da interação entre o ser humano e máquinas.

2 Comments

  1. Baita inspiração! 😀

  2. Hipoalgésico… taí um palavrão!

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