Dentro de um Cachorro e os olhos de ver

Estou lendo um livro muito legal chamado “Inside of a Dog: What Dogs See, Smell, and Know” escrito pela Alexandra Horowitz. O livro é sobre cachorros, mas dá para extrapolar o tempo todo.

Por exemplo, antropomorfismo.

Antropomorfismo

Uma palavra assim, tão acadêmica, mas que significa simplesmente a nossa mania de enxergar o mundo sempre do nosso ponto de vista, humano.

Tipo esse clássico: a gente olha para o golfinho e acha que ele tá sorrindo o tempo todo, ooohnnn, que simpática criatura.

Bottlenosed Dolphins

“Sai daqui seu chato!”

Só que na verdade ele não está sorrindo. A boca dele é que tem esse formato. Sempre. Tipo o Coringa, do Batman, um sorriso permanente. Mas quem é que nos convence que esse golfinho não está alegre em nos ver? Rolou uma conexão, que gracinha.

Meus saudosos cachorros, o Max e a Mel, também tinham esse “sorriso” fácil de enxergar, por causa da forma da boca. É uma característica dos Golden Retrievers e de algumas outras raças.

max

“É um pêssego. Mas não quero comer, dá para arremessar por favor?”

E qual o problema em enxergar um sorriso?

Bom, daí para ignorarmos dor, por exemplo, é um passo. O pobre coitado tá lá urrando de dor por algum motivo qualquer, se aproxima de você, faz um esforço danado para ver se você entende telepaticamente o que ele está querendo dizer, mas você continua se contorcendo “ai…que coisinha mais fofinha, cúti-cúti, olha que gracinha, como ele tá feliz! Uóóón…”

Ou pior ainda: vestir cachorro que nem gente (ou outro animal).

Roupinha, casaquinho, lacinho, caminha, ração com sabor de chocolate, ensinar a latir “I Love You”.

easterchihuahua

Somos todos vítimas do antropomorfismo. Nós e, principalmente, os alvos da nossa antropomorfisação.

A solução para não cometermos esse tipo de erro é ignorar o nosso instinto antropomorfista e simplesmente perguntar para o cachorro o que ele quer. Você só precisar aprender a traduzir a resposta 😉

Empatia

E é essa parte que dá para extrapolar porque afinal de contas, é o que nós publicitários fazemos, ou pelo menos deveríamos fazer: perguntar para o consumidor que tem dentro da nossa cabeça o que ele quer (ou perguntar de fato, se bem que é perigoso pacas) e depois traduzir a resposta. Também conhecido como empatia. Se COLOCAR no lugar do outro e não apenas se solidarizar.

Eu sou um fiel adepto dessa estratégia, sempre me coloco, instintivamente, no lugar da pessoa que vai me ouvir, ou ler. E costuma funcionar. Você agora, por exemplo, tá achando o texto interessante, mas começando a achar um pouco longo. Vou acelerar.

Foi pensando nesse papo de atropomorfismo que o biólogo alemão Jakob von Uexküll  mandou essa:

“Qualquer um que queira entender a vida de um animal deve começar considerando o seu UMWELT, ou a sua maneira de ver o mundo”

UMWELT, essa é a palavra para você guardar. Tão legal que foi importada para várias áreas.

Olha na prática:

Uma rosa é uma rosa, certo?

roses photos

Errado.

Para um cachorro, uma rosa não tem essa característica de ser uma coisa bela ou diferente das outras plantas que estão ao seu redor, a menos que algum outro cachorro já tenha feito xixi nela. Para um pequeno besouro, uma rosa pode ser um território inteiro, com ótimos lugares para se esconder de predadores, ou para caçar formigas. Para um elefante, uma rosa é… que rosa?

Se o cachorro trabalhasse em agência, ou fosse do marketing, ou arquiteto (entre outras ocupações) e fosse criar algo para ser consumido pelo besouro ou pelo elefante, seria bom considerar seu UMWELT.

Uma vez perguntei para uma amiga arquiteta se ela não sofria quando tinha que fazer uma casa para algum novo-rico, cheio de grana mas sem o mínimo gosto, pedindo um monte de coisas cafonas. Ela me disse que de jeito nenhum, que era um grande prazer, afinal de contas era ele que ia morar lá e o seu papel era ajudá-lo a realizar um sonho, a criar um lugar onde ele tivesse prazer em ficar, e morar. Foi uma lição que nunca mais esqueci.

Parece óbvio, mas a tentação de criar as coisas do nosso ponto de vista é sempre presente. Abre uma Archive e me diz se os anúncios que estão lá dão mais prazer para quem criou ou para quem consumiu. Claro, não é regra, mas abrir mão da próprias vaidades e da própria vontade de se expressar de maneira mais autoral, em favor do UMWELT não é assim tão fácil.

Não é à toa que o pessoal de criação briga atualmente contra o rótulo de “formateiros”. De algum lugar veio essa percepção né? Expression Session. Fora que precisamos resgatar esse conhecimento das engrenagens do consumo mesmo, parar de ficar só na bolha. Don’t believe the hype.

shoes

Enfim, tá bom.

Pare de vestir seu cachorro, leve a palavra UMWELT como alerta dentro do seu cérebro (serve até na hora de comprar presente) e treine seus olhos de ver. Você vai enxergar novos mundos.

gatocasa

Img: WilleeCole/Shutterstock

 

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Wagner Brenner

4 Comments

  1. http://en.wikipedia.org/wiki/Umwelt Umwelt! Me fez lembrar das minhas aulas de semiótica na faculdade.

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